O TAL JEITINHO

      Logo ao acordar, cinquenta e oito mensagens no whatsApp de um grupo que fica no silencioso, justamente devido ao exagero de mensagens. Há quinze dias, a maioria das mensagens segue o mesmo assunto: cachorro na praia. Ah! Esqueci de contar. Este é um grupo de uma associação de uma praia do litoral norte de São Paulo.

          Voltando ao assunto dos cachorros, há uma lei municipal que proíbe cachorros na praia. A razão é simples. A urina e as fezes dos cachorros provocam doenças e, nesse verão, as crianças que frequentam a praia nunca tiveram tanta doença de bicho de pé, justamente porque nunca houve tanto cachorro na areia.

          Assim, nada mais sensato do que lembrar às pessoas da proibição e fazer cumprir a lei. Parece simples para uma cidadã obediente como sempre fui. Ledo engano. Os donos de cachorro querem achar brecha na lei e argumentam que seus cães são vacinados, educados, uma pessoa do grupo chegou até a dizer que seu cão quase nem late. Dá pra acreditar? Só faltou alguém dizer que seu cãozinho também não faz nem xixi ou cocô.

          Mensagens pra lá. Mensagens pra cá. E eu quieta. Hoje é dia do trabalho. Deveria estar de folga e não lendo tanta bobagem. Não aguento esse tipo de discussão que foge ao bom senso, mas tento me controlar e não entrar na roda. Alguém manda um filminho querendo dizer que prefere cães a pessoas, outra associada defende uma moradora que, mesmo sabendo da proibição, levou os dois cães para tomar um banho de mar. Afinal, ela é tão boazinha e por aí vai.

          Quando as mensagens desse tão alto nível chegaram ao número absurdo de noventa e seis(acho que é um número cabalístico) minha paciência se esgotou. Mandei uma mensagem mal educada dizendo que lei é lei e tem de ser cumprida. Simples assim. Quem quiser que leve seu cão para passear na praça, no parque, no quintal, em qualquer lugar, mas na praia não. Alguém ainda respondeu que leis devem ser questionadas. Concordo. Então vá ao fórum correto que é o poder legislativo e sugira uma mudança, mas, enquanto a lei existir, tem de ser cumprida.

          As mensagens pararam.

          Depois o brasileiro não entende porque seus políticos acham que podem ir contra a lei. Eles são o reflexo de seus eleitores que apoiam as leis que lhes é simpática e tentam achar brecha na lei que não corresponde aos seus desejos. É o mesmo cidadão que para só “cinco minutinhos” em vaga de idoso ou deficiente, que pega o acostamento só quando está com muita pressa, ou que sonega só um pouquinho no imposto de renda. Esse é o cidadão que se acha honesto.

                                                                                 São Paulo, 01/05/2018