PITANGUEIRA OU...

 

          Tenho duas pitangueiras. Uma delas me presenteia duas vezes ao ano com seus belos frutos. A outra, nada. Claro que não ficam no mesmo lugar, não recebem o mesmo Sol e nem usam a mesma terra. Entretanto, a que dá frutos não recebe qualquer cuidado. Cresce ao léu, sem um aditivo, sem uma poda, enquanto a outra é cercada de atenção e de tudo que seria necessário para uma linda colheita. Mas parece que o tudo não é suficiente.

       Chego à conclusão de que não adianta a melhor semente, nem o melhor agricultor se a terra não for adequada.

          Claro que não estou falando só de pitangas. Aliás, uma crônica só de cuidados para a pitangueira só poderia interessar mesmo a um agrônomo.

         A pitangueira só me fez pensar. Da mesma forma que, por diversas vezes, sou tentada a arrancar a pitangueira improdutiva e, quem sabe, no lugar arriscar plantar um pé de limão siciliano, costumo também ser tentada a desistir de algumas pessoas ou de algumas situações. Sou teimosa, mas até a teimosia tem limites.

          Não sei bem porque insistimos tanto em algo, se, claramente, já ficou óbvio há uma eternidade que, por mais que se faça, não colheremos aqueles frutos tão sonhados. Alguém me disse há muito tempo que quando algo é muito difícil não é pra ser, pois quando é para acontecer, todo o universo conspira a favor. Pode ser.

      O grande problema é que somos criados para não desistir jamais. Temos de ser persistentes, resilientes, como se desistir fosse uma fraqueza, o que não é verdade. Desistir, por vezes, é o mais saudável a ser feito e precisa de muita, muita coragem. Tenho pensado seriamente que é preciso sim desistir de algo para dar espaço a que novas oportunidades entrem em nossa vida. Duas matérias não ocupam o mesmo lugar no espaço. Física básica.

          Olho a pitangueira carregada de laranja e vermelho.

          Todo mundo merece uma visão assim.

 

                                 São Paulo, 01/09/2020