POBRES FÉRIAS

          Férias sem viajar é como feijão sem arroz. A gente come, até acha bom, mas sabe(apesar de não querer admitir) que poderia ser muuuuito melhor.

        Durante anos, viajei todo mês de julho. Frio aqui, calor lá fora. O melhor dos mundos. E quem trabalha com educação não tem muita escolha. Saímos de férias junto com os alunos, queira-se ou não. Por isso, é melhor brincar de Pollyanna, e achar julho o melhor mês do ano para se tirar férias.

         Esse julho, que está chegando ao fim, eu não viajei. Por quê? Ora, leitor, eu não preciso lhe contar tudo. Limite-se a escutar, por favor! O que importa é que pela primeira vez em muitos anos, eu trabalhei, enquanto observava os outros saírem de férias.

           A primeira semana é sempre uma delícia. Dormir até mais tarde(só um pouco, porque você está velho e as costas doem), ficar vestido de mendigo o dia todo, sessão da tarde. Mas não foi isso que você planejou. Tem aquelas gavetas que há meses pedem por uma arrumação; aquele conserto que só com você em casa pra chamar o encanador; aquela mudança de móveis que você queria fazer aqui e ali.

        Ah, foi ótimo! Aproveitei pra descansar, colocar minhas coisas em ordem, arrumar alguns armários e escrever o meu mestrado! Ah, tá!! Em outras palavras: você não teve férias alguma. Trabalhou pra caramba! Só não tinha o chefe para lhe cobrar. Você foi seu chefe. E, diga-se de passagem, você consegue, facinho, facinho, ser mais carrasco com você mesmo do que seu chefe de verdade.

          Quando não se viaja e as pessoas que trabalham com você sabem disso, tem sempre um ou outro que acha que não tem qualquer problema uma perguntinha por what up ou por e-mail. Quiça, até um telefonema. Afinal, dá sempre pra dizer que se estava com saudade sua. Mas eu, você e o resto da humanidade sabemos que isso é só desculpa. No fundo, as pessoas não respeitam muito esse tempo. Afinal, você não viajou. Está em casa de bobeira. O que custa responder?

            E assim, sem perceber, trinta longos dias acabam em um piscar de olhos. Você retorna uma segunda-feira dizendo que foi tudo ótimo. Eu olho e tenho pena. Penso que até dá pra bater o feijão, fazer um caldinho, ou então, misturar muita farofa e comer a gororoba com um pouquinho de pimenta. É gostoso sim. Não posso negar. Ah, mas que falta faz um arroz!!

 

                                                                                  São Paulo, 23/07/2019