POR AÍ

 

          Ando de lá pra cá com motoristas de aplicativos e o que, para a maioria das pessoas, pode ser um desconforto, para mim é um grande prazer. Não preciso dirigir, me estressar com o trânsito dessa cidade que eu amo, mas que insiste em me deixar horas parada entre suas ruas, fazendo com que eu me sinta tão impotente.

          Rebelde, não aceito ser vencida pelo trânsito. Falo ao telefone, respondo e-mails, confiro minhas redes sociais e consigo até trabalhar tranquilamente.  Nesse momento mesmo, estou escrevendo essa crônica enquanto o motorista me leva para o meu destino que é bem longe de casa. Tenho uma tática dependendo do que pretendo fazer na longa viagem. Se o meu objetivo é escrever, abro o computador e respondo monossilabicamente. Se quero conversar, puxo assunto, faço perguntas, dou corda.

        De vez em quando pego um motorista mais religioso e sou obrigada a ouvir algum culto pelo rádio ou músicas de gosto duvidoso, mas, mesmo assim, brinco de Polianna e digo a mim mesma que estou ampliando meus conhecimentos, o que jamais aconteceria se estivesse no meu carro, ouvindo o meu rádio. Afinal, uma escritora tem de entender de gente, de todos os tipos de gente.

          Alguns motoristas ainda me servem água ou balinha enquanto eu escrevo ou converso, converso, converso... São eles que me contam que o trabalho pelo aplicativo, na maioria das vezes, é apenas algo temporário em um país com mais de treze milhões de desempregados. A grande maioria perdeu o emprego nessa crise que parece interminável e viu no aplicativo sua única opção de renda. Ouço as histórias, sempre me surpreendo com algum detalhe, e fico encantada em perceber como as pessoas são tão diferentes e tão iguais.

         -Um dia essa crise vai passar e eu vou poder voltar a trabalhar no que gosto, me disse uma vez um motorista.

          - E no que você trabalhava? – perguntei curiosa.

          - Sou engenheiro ambiental.

        Respiro pesarosa. Até assim o meio ambiente perde. Penso, mas não digo. As palavras, apesar de serem meu ofício, me faltam. Reforço que, claro, um dia essa crise tem de passar.

         Meus olhos curiosos sempre reparam no carro. Vejo se é bem cuidado, se está limpo, se tem terço dependurado no espelho, fotos de crianças e tantos outros pequenos detalhes que me contam sobre aquele que dirige sua casa móvel e ainda abre espaço para que viajantes como eu possam desfrutá-la.

          Alguns querem saber da minha vida. Fazem muitas perguntas e eu, filha de mineira desconfiada, não conto tudo com medo das histórias de sequestro que povoam nossas pobres mentes urbanas. Quando a corrida termina, exatamente como o combinado, sinto um pouco de vergonha de ter pensado mal de apenas um trabalhador brasileiro.

          Fecho a porta do carro enquanto me despeço desejando um bom-dia.

          Sei que é um trabalho como tantos outros, mas me entristece pensar que, apesar de trabalhar doze, quatorze horas em um trânsito feroz, não há para ele a criação de vínculos com os colegas de profissão, o bate papo do café, as pequenas comemorações de aniversário e o falar mal de chefe, coisas que tornam o dia a dia em um emprego mais suportável e que, de verdade, são tão importantes.

 

                                                                       São Paulo, 28/05/2019