POR HORAS

          Viagens longas de carro valeriam um tratado sobre comportamento humano. Quando começam, como qualquer viagem para um lugar que ansiamos por estar, tudo é festa. Achamos a estrada bem mantida, a paisagem bucólica, e até os postos de gasolina com aquelas enormes lanchonetes, um convite ao entretenimento. Alguém faz uma piada qualquer, que nem é tão engraçada, mas todo mundo ri à beça.

          Ninguém nem liga se aquela mala pequena não coube no porta-malas e está no banco de trás atravancando espaço junto com a sacola do notebook e o violão, objetos sensíveis que não podem ficar longe da vista. O importante é a viagem e o enorme violão, a promessa de boa cantoria no destino. Afinal, o carro, um compacto, nem parece tão pequeno assim.

          O moderno aparelho de mídia recebe um pendrive com horas de diferentes canções cuidadosamente selecionadas pelo músico do grupo. Por horas, todos cantam juntos até que todo mundo se surpreende quando, de repente, a seleção começa de novo. Cantar ou ouvir as mesmas músicas já não parece tão divertido. Alguém se lembra do rádio, mas não há uma única rádio que se consiga sintonizar no meio de uma estrada no meio do nada. Ainda bem que assunto é o que não falta.

          Com o passar do tempo, as pernas dobradas começam a incomodar. A gente vira para um lado, vira para outro em busca da melhor posição. A antes animada conversa envereda por um caminho estranho. Dentro de um carro sem ter para onde fugir não é o melhor lugar para lavar a roupa suja, mas quando se vê não há varal que dê conta de tanta roupa.

          O ambiente azeda e as pessoas ficam quietas. Alguns fecham os olhos e fingem dormir, enquanto outros fecham a cara e fazem beiço. As placas de quilometragem passam a ser a única distração e é estranho como elas se alteram tão devagar. Aliás, conforme as horas avançam, ainda mais devagar os tais quilômetros resolvem andar.

          Depois de um longo silêncio, alguém reclama da mala. Outro reclama do violão e alguém quer saber por que a sacola do notebook está ali. Pelo menos em algo todos concordam, o tal compacto deveria ter uns bons dois metros a mais.

          A noite chega e a estrada vira um nada escuro. Enquanto o motorista continua firme e forte, ninguém lhe põe reparo, mas quando ele boceja e esfrega os olhos, a tensão aumenta. Alguém sugere parar para um café forte, os outros se opõem, pois vai demorar ainda mais. Quando a discussão ameaça recomeçar, o motorista pede silêncio e aponta a placa. Lá está o nome do destino. São agora só vinte quilômetros, os últimos vinte. O motorista vê um posto e estaciona. Alguém ameaça reclamar, mas ele manda todo mundo pra fora. Café, água, banheiro, sanduíche. É uma ordem. Todos descem obedientes e sorriem. Afinal, ele é o comandante, o último a abandonar o barco. E o que são vinte quilômetros?

 

                                                                               São Paulo, 24/07/2018