PÓS-VERDADE?!

 

          Alguém poderia me explicar exatamente o que significa a expressão “pós-verdade”? Ouvi no rádio, durante uma entrevista, e fiquei na expectativa da jornalista perguntar para a sua entrevistada, o que ela queria dizer com aquilo, mas nada. Ou a jornalista sabe o que eu não sei ou fingiu que sabe. E aí mora o problema. As pessoas inventam palavras e expressões e o resto acompanha. O tal efeito manada.

          Erra quem pensa que eu sou uma purista da língua. Não vejo nenhum problema em inventar palavras para significar algo, desde que já não exista a palavra certa na língua-mãe. Guimarães Rosa era brilhante nisso. A própria palavra “sagarana” é uma invenção genial.

          Já que não existe no meu dicionário, vou ao Google, o novo pai dos burros. E vejo lá que a Oxford Dictionairies elegeu “pós-verdade” como a palavra do ano em 2016. Puxa!! Então deve ser mesmo uma palavra séria!! Será que alguém sabe que a mesma Oxford elegeu um emoji, aquela carinha amarela, como a palavra do ano de 2015?? Um emoji é uma palavra? Desde quando? Claro que símbolos comunicam algo, sempre comunicaram, mas não vamos confundir tudo. Instituições sérias também erram. Basta estudar história para constatar isso.

          O significado de “pós-verdade” para a Oxford é simplesmente boato, mentira disseminados, principalmente, pelos meios de comunicação e, por isso, se espalham tão rapidamente que ganham força de verdade. Suplantam a verdade dos fatos e influenciam a opinião pública. Ora, isso sempre existiu. Então, pra quê usar pós-verdade? Provavelmente, as pessoas acham chique, moderno... ou será pós-moderno?

          A palavra foi usada pela primeira vez pelo roteirista e dramaturgo sérvio Steve Tesich, em 1992. Escritores trabalham com a língua para conseguir o efeito desejado e, nesse caso, nenhum problema. Mas quando as pessoas se apropriam do termo de um ficcionista só para parecer elegante em uma fala que deveria ser exata porque lida com a realidade, não vejo qualquer sentido, pelo contrário, vejo um grande problema.

          Não estamos na era da “pós-verdade” na internet. Estamos na era da mentira(com todas as suas letras), dos boatos, quando cada um escreve o que quer, inventa o que quer e o resto lê sem qualquer olhar crítico. Lê e acredita. E o pior, ainda repassa, disseminando, muitas vezes, também sentimentos ruins como raiva, ódio, indignação...

            Acredito que estamos vivendo um momento único na história da humanidade. Pela primeira vez, todos nós temos acesso aos meios de comunicação não apenas como consumidores, mas também como fornecedores de conteúdo e isso exige de nós uma responsabilidade nunca exigida antes. A mesma ética que ensinamos aos nossos alunos de jornalismo, também tem de estar em cada um de nós, em cada mensagem, em cada postagem, porque nunca foi tão fácil destruir alguém ou uma empresa, ou até mesmo um governo, apenas com palavras.

            Palavras são poderosas. Se eu puder lhe dar um conselho,(Eu sei. Ninguém gosta de conselhos, mas vou dar assim mesmo.) ao escolher usar uma palavra, escolha aquela que tem seu significado sedimentado e compreendido por todos. Não caia em modismos por mais elegante que isso possa parecer. A confusão pode ser muito maior do que você jamais sonhou.

                                                           São Paulo, 31/10/2017