PRA QUÊ??

         O marcador de gasolina do meu carro, ou melhor, de etanol, mostra só um risquinho. Não sei o quanto se pode andar com isso, mas sei que é bem pouco. Não dá para atravessar nem um bairro em uma cidade como São Paulo. Então, em tempos de greve de caminhoneiros e transporte público deficitário, fico em casa, e todos os compromissos ficam adiados, a vida fica adiada.

         No sábado, fui almoçar no centro. Na volta, me recusei a pagar o triplo do que seria o normal em uma corrida de uber. Era perto do ponto final de um ônibus que me deixaria a um quarteirão de casa. Entrei feliz no coletivo. Bancos bonitos, limpo, ar-condicionado, praticamente vazio...  Tudo ia muito bem até que o motorista sorri para mim e avisa que ele também não tem combustível, por isso estava parado no ponto final. Deveria ter desconfiado. Era muita sorte.

       Resolvo esperar ali mesmo. Não vou pagar o que não é justo. Há de aparecer outro ônibus. Não tenho pressa. E, depois de uns quinze minutos de espera, eis que ele surge e novamente tão bom quanto o outro. Fiquei feliz com a viagem e desejei que todo transporte público fosse assim, mesmo nos horários de pico e que as pessoas não precisassem ir praticamente dependuradas na porta de tão cheio.

         No começo, até apoiei a greve. A reivindicação parecia justa. Agora não apoio mais. Parar o país só vale a pena se for para uma mudança real nos tributos e não foi isso o que aconteceu. Serão sessenta dias de congelamento e quem vai pagar a conta de treze bilhões seremos nós, a população brasileira. Ganhou uma categoria, ganhou os donos de transportadores e nós, mais uma vez, perdemos.

     E o que acontecerá daqui a sessenta dias? Nova greve? Novo congelamento de preço? É mais ou menos como enxugar gelo. Ninguém pensa na causa. É um pensamento curto, limitado.

        Se temos um país estruturado em estradas de rodagem(o que é uma burrice, eu sei), até um governo ter a brilhante ideia de investir em estradas de ferro ou em mais refinarias, vamos depender dos caminhoneiros. Então, por que o diesel tem de pagar imposto estadual e federal? Por que não é isento, o que baratearia todas as mercadorias transportadas pelos caminhões? Não era mais simples? O preço sempre vai subir se não somos autossuficientes em diesel, mas, por que o imposto tem de subir também?? De novo, pra que taxar algo tão fundamental que impacta no mercado como um todo?

         Eu sei que a lei de responsabilidade fiscal diz que não é possível tirar um imposto sem que haja previsão de ganho por outra fonte, mas que seja então corte de benefícios do governo, enxugamento da máquina pública e não mais impostos em áreas diferentes.

       Não sou economista, sou só uma cronista. E talvez a minha ideia seja simplista, mas se há isenção de impostos para tanta coisa nesse país, acredito que a isenção no diesel não ajudaria só uma determinada classe, seja de empregados ou de empregadores, mas toda sociedade. Entretanto, isenção sem onerar ainda mais a carga tributária da população brasileira que já é uma das mais altas do mundo. É essa a greve que eu desejaria apoiar. Enquanto isso, só ando a pé e não como batata que está pela hora da morte.

                                              

                                                   São Paulo, 29/05/2018