PRA QUE MUDAR?

         Há alguns anos, estava fazendo uma pesquisa sobre Machado de Assis em um jornal do século XIX, quando encontrei um anúncio do leite condensado da Nestlé. Lembro que gostei muito de ver a latinha gorda que foi contemporânea de Machado, mas que havia chegado até aos nossos dias. Era gostoso imaginar que havia coisas do contexto do mestre da literatura que também faziam parte do meu contexto.

         Hoje de manhã, olho a nova lata sem graça e comum do mesmo leite condensado e me pergunto por quê? Porque os desenhistas industriais ou publicitários ou especialistas em marketing acham que têm de mudar sempre? Por que algumas coisas não podem ser como sempre foram?

       A lata bojuda na parte de baixo era a marca registrada, facilmente identificável na prateleira do supermercado e agora é igual a todas as outras. Será que o custo da embalagem era tão diferente assim que valesse a pena perder a individualidade?

          Há, em todas as áreas, uma determinação implícita de mudança, como se toda mudança fosse um aprimoramento, um progresso, o que nem sempre é verdade. Mudanças são bem-vindas. Gosto de mudanças, mas se forem para melhor, se forem significativas e não a mudança pela mudança.

         Ao contrário da moda masculina que tem pouquíssima mudança ano a ano, a moda feminina se altera drasticamente a cada estação. Cria-se em algumas áreas a necessidade de mudar para estimular o consumo e nós caímos como patinhos nesse jogo do mercado. Somos, de longe, os perdedores, entretanto, a gente se engana comprando e comprando o novo, como se fosse uma vitória.

          Sou uma nostálgica. Sinto falta do mandiopã, da grapette, do Batman em preto e branco, dos almoços de domingo com toda a família, das longas conversas por telefone e não mensagens monossilábicas por whatsApp, e por tudo que nos tornava mais felizes. Cada vez interagimos menos, consumimos mais, compramos coisas que não precisamos e fazemos o que o moderno espera de nós.

       Não me interprete mal. Não acho que devemos jogar fora nosso computador, nosso celular e voltar à Idade da Pedra Lascada. Não é nada disso. Só precisamos analisar mudança a mudança e decidir se aderimos ou não a ela.

           Tenho certeza que muitos leitores me acham antiga por valorizar coisas que parecem tão pequenas. Mas, estejam certos, só parecem. As mudanças ocorrem devagar, com coisas aparentemente irrelevantes como uma lata antiga, mas elas são o sintoma de uma época, de uma sociedade que prioriza o fugaz. Nossa humanidade é feita de lembranças que se perpetuam, de memórias que transmitimos gerações a gerações. Os laços comuns nos unem e nos identificam com um grupo, com uma sociedade, com um tempo e, por isso, são tão fundamentais. Só nos lembramos de algo que viveu o tempo suficiente para fazer história.

           Lembra?

                                                                            São Paulo, 27/03/2018