PRETINHO BÁSICO

          Na véspera da festa, ou até no mesmo dia, pela manhã, o homem dá uma olhada em seus ternos, escolhe um deles, ou, se for do tipo que só tem um terno para festa, melhor ainda, não gasta nem dois minutos para decidir. Em ambos os casos, o homem tira o terno do armário, deixa dar uma arejada, quando muito põe o tal terno pra passar e tudo certo. Nem pensa mais nisso.

           Por que a mulher não é assim? Meses antes do evento já está pensando no vestido, experimenta o armário inteiro, não encontra nada que lhe apeteça, experimenta de novo e nada, começa então a caçada pelas lojas. Está muito caro, muito justo, muito chamativo, muito curto, muito comprido e não compra nada. Às vezes, até compra e, para seu desespero, quando chega em casa experimenta novamente e conclui que detestou o vestido novo. E a caçada ao armário e às lojas reinicia.

          Nunca vou entender direito porque a diferença é tão grande entre os dois sexos. Eu sei que todo mundo quer parecer bonito e elegante, principalmente em uma festa. Mas será que o vestido é tão importante assim? Quanto mais penso, mais acredito que não tem nada a ver com o vestido, mas o que está por trás do vestido: a competição entre as mulheres que, desde que o mundo é mundo, se dá pela beleza.

          Durante séculos, ser bonita era garantir a sobrevivência. Quanto mais bonita, mais era possível ascender na escala social. A beleza era tudo que o homem enxergava na mulher. Primeiro, a mulher deveria ser apenas uma bonequinha, criada especialmente para embelezar a casa ou envaidecer o marido. Depois, vieram os concursos de misses, a modelo de revista, a mulher que se despe da bonequinha e ganha fantasia sexual. Para tudo isso, era imprescindível que a mulher se esmerasse para ser a mais bonita. A competição sempre foi acirrada. Coitada das feias!!

            Até que um dia, felizmente, alguma coisa mudou. Hoje, uma mulher trabalha dez horas por dia, estuda para não ficar desatualizada, cuida dos filhos, da casa e do que mais aparecer pela frente. Não tem tempo nem neurônio pra gastar com tamanha bobagem do que um vestido para parecer mais bonita do que todas as outras mulheres da festa. E assim, uma de nós, teve uma ideia brilhante: o pretinho básico. Ao optarmos pelo pretinho básico, enviamos o sinal claro de que todas nós estamos cansadas dessa competição.

           É óbvio que, se você tiver um vestido colorido bem fácil, à mão, que você comprou só porque era bonito e não por obrigação, tudo bem também. Mas o pretinho básico não faz feio, não levanta inveja e maus-olhados, não nos rouba horas de bate perna procurando uma roupa perfeita que, muito provavelmente, só existe em nossa cabeça.

         O pretinho básico permite que sejamos nós mesmas, preocupadas apenas em nos divertirmos na festa e não ter de fazer caras e bocas para combinar com um vestido de competição. O pretinho básico é o terno do homem. Simples e bonito. E, ainda por cima, emagrece.

 

                                                     São Paulo, 27/02/2018