PROPAGANDA DISFARÇADA

          Ouço o programa na rádio que não é de bom tom dizer o nome. Vou dar uma pista. Uma rádio que tem nome de uma cidade perdida e, conforme a lenda, feita toda de ouro. Mais que isso, só desenhando, né?

          O programa, uma propaganda muito mal disfarçada em editorial, fala de empresas e seus públicos. Há tempos escuto o tal programa e só se fala das marcas. Consumidores mesmo, só no nome. Sou jornalista do tempo em que conseguir uma pauta para falar de um produto ou de um serviço era uma dificuldade. O produto tinha de ser algo totalmente inovador, uma verdadeira revolução, pois, se assim não o fosse, não seria notícia. Que ocupasse as páginas de anúncios, mas nunca do noticiário.

        Isso mudou. Em tempos de internet, os impressos praticamente definham dia a dia e, mesmo os eletrônicos, como o rádio ou a televisão, enfrentam uma concorrência que até então não existia. As notícias são propagadas pelas redes sociais a uma velocidade que nenhum meio de comunicação de massa consegue acompanhar. Todo mundo se acha jornalista, cinegrafista, radialista e por aí vai.

          Sou defensora do acesso ao conhecimento e às informações, mas jornalismo é outra coisa. As pessoas postam qualquer coisa e se acham importantes na cadeia do conhecimento. Não há pesquisa, estudo ou coisa que o valha. Fala-se de tudo sem qualquer base científica ou fonte segura. Pode parecer contraditório, entretanto, vivemos também o tempo da desinformação.

      Mas, voltando ao tal programa, as tais empresas, normalmente anunciantes da rádio, ocupam espaço no dial para falar das maravilhas de seus produtos ou serviços. O jornalista (?) faz perguntas que chamamos de ponte para que o entrevistado tenha ainda mais oportunidades de se auto-elogiar. Não há uma tentativa sequer de levantar qualquer fragilidade que o produto possa ter, nem sequer uma dificuldade de mercado que tenha de ser contornada.

          Sinto vergonha alheia. É muito triste ver uma rádio que sempre foi séria se prestando a isso. Tenho vontade de ligar ou escrever reclamando, mas, por mais que ache um absurdo, entendo. É a sobrevivência que está em jogo, mesmo que todos saibam que não será por muito tempo. Sim. Sou pessimista a respeito dos tradicionais meios de comunicação. Poucos restarão na minha avaliação e até esses poucos terão que se reinventar.

          E o jornalismo? Bem, essa reflexão é ainda mais complexa e por isso fica para outra crônica. Por enquanto, desconfie de todo programa ou matéria que, apesar de se dizer jornalística ou figurar no meio do noticiário, não traga os dois pontos de vista: o da empresa e do consumidor. Garanto que em um mundo sério, dificilmente as duas opiniões serão iguais.

                                               São Paulo, 23/07/2019