QUESTÃO DE SORTE

          Sempre ouvi a frase “é tudo uma questão de sorte”, principalmente, de pessoas mais velhas, mas, de verdade, nunca acreditei nisso. Pelo contrário, sempre apregoei que cada um faz sua própria sorte. Entretanto, à medida que o tempo passa, a vida caminha, tenho repensado sobre isso.

          Quem não conhece pessoas que fazem, fazem e não conseguem atingir seus objetivos? Será que essa pessoa faz alguma coisa errada e nem ela e nem ninguém consegue identificar o erro? Por mais que isso aconteça sim em alguns casos, tenho achado pouco provável que se aplique a todo mundo, justamente porque o contrário acontece também. Há pessoas que não fazem absolutamente nada, não se esforçam e conseguem sucesso no que almejam de uma forma tão fácil que dá até inveja, mesmo que seja uma inveja boa.

         Destino ou sorte tem de ser um elemento que faz parte da fórmula. Outro dia, li uma entrevista com um grande editor comentando que sua editora recebe dezenas de originais por dia e que, com certeza, não será o melhor que terá a oportunidade de ser publicado porque inúmeros fatores influem como o bom humor ou mau humor do leitor responsável no dia que o original chegou, se o serviço está atrasado e há um número enorme de originais a serem lidos, se o envelope foi danificado no correio e o original chegou todo amassado, se o leitor crítico não tem paixão pelo tema do romance, e por aí vai...coisas que são cotidianas, comuns e que não se referem à qualidade do texto, mas apenas a uma coisa chamada sorte.

       No amor acontece a mesma coisa. São inúmeras as histórias de desencontro. Duas pessoas que se amam e não ficam juntas por motivos que, aparentemente, são inexplicáveis. Às vezes, são questões de segundos que alteram as vidas. Se alguém tivesse esperado um segundo a mais teria visto seu grande amor chegando e não teria partido, ou, se apenas uma frase tivesse sido dita, o outro teria tomada um rumo completamente diferente e a vida de ambos poderia ter caminhado juntas.

           Claro que creio que cada um tem de se esforçar ao máximo, fazer sua parte para alcançar o que deseja, mas há um limite para culpar a si próprio. Há coisas que estão além de nosso controle e não dependem de nós. Tenho um filho que diz que se é pra acontecer, será fácil porque todas as energias vão convergir para isso e que o contrário também é verdadeiro: começou a ficar muito difícil, fracasso após fracasso, está na hora de mudar de estrada, às vezes, completamente.

     Fico dividida. Desde pequena fui acostumada a perseverar indefinidamente, ou melhor, perseverar até alcançar a vitória. Desta forma, ter de abandonar um caminho sempre tem um gosto de derrota, mas talvez não seja, seja apenas uma mudança necessária. A sorte ou o destino quer lhe mostrar outros cenários, muitas vezes até muito mais floridos e a sua teimosia não deixa que isso aconteça. Pode ser.

            De qualquer forma, passei a acreditar que há muitos imponderáveis que não entendo e, pelo sim pelo não, passei a carregar um patuá sempre comigo. Tem medalhas dos meus santos mais queridos, figas, fita do Senhor do Bonfim e uma nossa senhora. Uma proteção a mais não fará qualquer mal e, quem sabe, até atraia a tal sorte.

                                                           São Paulo, 24/10/2017