RETOMADA

         

           Passei meses sem escrever porque a vida, às vezes, exige silêncio.

      Agora, meus dedos passeiam pelo teclado buscando o seguro inusitado. São dedos trêmulos que perderam musculatura, mal começam e já se cansam.

        Sempre soube que letras são seres teimosos e sensíveis que não gostam de silêncio e muito menos de abandono. Coloco um “a”, sempre amoroso, mas o “b” blasfema sua sina. O “c” cria caso e não quer tomar o seu lugar.  O “d”, obviamente, desaparece. Não aguento tanta indisciplina e tento me zangar, mas o “z” zarpou há muito.

           Como é difícil retomar!

         Tento explicar a elas que a palavra não sumiu, só se calou. Havia ruído, tanto barulho, que letras, por mais forte que fossem, não dariam conta. O outro silêncio, aquele que ninguém vê, não existiu, muito pelo contrário.

        Elas continuam me olhando, quietas, impassíveis. Estão magoadas, não querem me ajudar.

      Relembro, mostro quantos momentos por escrever, quanto a se dizer. Preciso. É recomendação médica. Não quero Prozac ou Zoloft. Só preciso de letras que me deem algum sentido, que ordenem a bagunça, que mostrem as saídas.

            Imóveis.

         Não estou pedindo um romance. Só uma crônica. Uma única página. Poucas palavras, ínfimas letras.

           Imóveis.

           Desisto. Talvez amanhã.

        Respiro fundo, desanimada, e deixo a mão cair desajeitada sobre o teclado. Só queria contar o que aconteceu nessa ausência de mim.

           Quem sabe, só mais uma tentativa.

           Passei meses sem escrever porque a vida, às vezes, exige silêncio...

 

                                                                              São Paulo, 16/07/2020