RISCOS

          Na sua casa havia uma piscina e ela não estava contando isso porque quisesse se exibir. Até sentia muito pela infeliz ostentação, mas a piscina fazia parte da história. Pois bem, um dos lados da tal piscina ficava quase encostado no muro e, para esconder o muro, fora plantada uma cerca viva, o que significava que o espaço de passagem que já era pequeno ficara ainda menor. Não cabia seu pé inteiro (está certo que seu pé era bem grande), mas apenas se fosse de lado. Ou seja, não era um lugar para se passar. Para isso existia todo o outro lado da piscina.

          Ela já havia tentado passar por ali algumas vezes ao longo dos anos e, por várias vezes, caíra na água. Uma vez, tentando pegar a cachorra, em outra, tentando salvar uma chinchila e, em muitas outras, porque sua coordenação motora ou talvez seu equilíbrio estivessem bem longe de ser uma maravilha. Ela vivia caindo de escadas e até no mais plano dos chãos. Mas, na tal piscina, caíra sim de roupa e tudo, inúmeras vezes, e também no inverno quando a água era ainda mais gelada e as malhas se encharcavam e grudavam no corpo.

          Essa trajetória desastrada seria o suficiente para qualquer um aprender, mas alguma coisa nela adorava riscos desnecessários. E aí chegamos ao x da questão: por quê? Por que fazemos coisas estúpidas? Nesse final de semana, ela me contou toda contente, que fizera questão de passar pelo tal lado estreito da piscina três ou quatro vezes e, ao final do dia, estava orgulhosa de não ter caído na água em nenhuma delas. Alguém já ouviu falar em uma coisa mais tonta? Até Etelvina acharia esquisito!!

          Pensei bastante sobre essa história toda e só posso concluir que o desafio, pequeno ou grande, é o que nos motiva. Seja profissional ou pessoal, quanto maior o desafio mais queremos vencê-lo. A maioria das pessoas não lida muito bem com a derrota e muito menos com a palavra “não”. Os psiquiatras e psicólogos de plantão devem ter uma boa explicação para isso. Eu não tenho. Só sei dizer que é assim. Sempre foi assim. E isso significa assumir alguns riscos, de vez em quando

          Claro, que o risco deve ser sempre muito bem calculado e sempre dentro daquilo que estamos dispostos a pagar, como cair na água, por exemplo. Sim, os riscos podem ser desnecessários muitas vezes, mas também os necessários fazem parte da brincadeira. Quem não assume risco nenhum será que é capaz de conhecer do que é capaz? Será que já não abriu mão de uma vida muito mais feliz por medo de se arriscar e perder?

          Certa vez, uma pessoa me ensinou a me perguntar quando estivesse frente a uma situação difícil: o que de pior poderia acontecer se eu enfrentasse essa situação? Esse ensinamento fez toda diferença em minha vida. A partir daí, eu sempre me faço essa pergunta e se o preço a ser pago pelo risco assumido for aceitável, por que não?

                                                                                       São Paulo, 11/12/2017