ROTINA

          Adoro uma rotina. Detesto rotina. Contraditório? Claro que não. Há coisas na rotina que creio serem essenciais. Sem rotina não consigo me organizar, não produzo, ando feito barata tonta de lá pra cá e quando vejo, o dia já acabou. Entretanto, a mesma rotina, ano após ano, é de deixar qualquer um maluco. Criatividade vai embora. Prazer foge. Felicidade em fazer desaparece completamente.

      Como tudo nessa vida, rotina é bom, desde que seja por um período, ou melhor, dizendo, desde que as rotinas se alternem. Depois de anos fazendo igual, nada como ter uma nova rotina. Gosto muito de criar a nova rotina. O que fazer a cada dia. O que fazer a cada hora do dia. Quanto tempo para o trabalho, para o estudo, para o lazer e até para o não fazer nada porque ócio criativo é fundamental. Aqui, tenho de fazer um parêntesis para avisar aos navegantes: ver televisão, esparramado no sofá, não é ócio criativo, pode ser lazer, pode ser muito gostoso, mas a sua criatividade está completamente adormecida vendo uma série que vem prontinha.

         Quando a gente tem um emprego, a rotina já está praticamente estabelecida. Afinal, oito horas por dia é um terço do dia todo. Se você dormir oito horas também, só sobram as últimas oito para você decidir o que fazer. Se também tirarmos os deslocamentos, aí sobra menos ainda.

         Situação muito diferente quando você não tem um emprego, mas trabalha por conta própria, sozinha. Desde que passei a me dedicar integralmente à literatura, sou ainda mais inflexível com a minha rotina, pois é muito fácil postergar a escrita. Sim. Escrever dá uma enorme preguiça. É preciso pensar, pensar, organizar as ideias, escrever, reescrever e reescrever. Há muitos dias que preferiria bater perna por aí, ou ler um livro, ou fazer qualquer coisa que não demandasse esforço. As pessoas costumam achar que há uma mágica chamada inspiração e que o escritor senta na frente do computador, bate a varinha de condão, e as letras vão aparecendo “magicamente” na tela. Se alguém descobrir onde se vende essa tal varinha, por favor, me avisem, pago bem.

        Escrever seis ou oito horas por dia também não é certeza de nada. A escrita pode simplesmente merecer apenas a lata do lixo ou a tecla delete. Nesses dias, me imagino como um cientista que errou sua fórmula ou um cozinheiro que o bolo embatumou ou um professor que não conseguiu dar aula porque a turma fazia uma bagunça danada. Em todas as profissões há dias de fracasso. Mas, no dia seguinte, a gente começa de novo.

        Mudo a minha rotina de tempos em tempos. No verão, começo a escrever mais cedo. No inverno, um pouco mais tarde. É apenas uma questão de gosto. Às vezes, também faço uma adaptação às outras obrigações ou ao lazer. Não importa. Tenho uma rotina. Escritor sem rotina é um barco à deriva, sem comando. Se der certo de encontrar uma ilha, ótimo, mas pode ficar anos só ao balanço do mar e o pior, reclamando do enjoo.

                                                           São Paulo, 22 de janeiro de 2019