SALVEM LOBATO

 

          

           Em uma escola que conheço não se lê Monteiro Lobato, o maior criador de literatura infantil desse país, porque as histórias do sítio do pica-pau amarelo não seriam politicamente corretas. Nunca ouvi tamanha bobagem. Livros escritos em uma determinada época seguem a cultura daquela época e, inúmeras vezes, não estão de acordo com o que, atualmente, consideramos correto. Mas daí a privar crianças do prazer de conhecer a literatura de Lobato é tornar o politicamente correto totalmente incorreto. Por isso estudamos o contexto em que uma obra foi criada, justamente porque alguns valores que estão na obra são estranhos ao presente. Basta explicarmos isso de forma bastante clara às nossas crianças. Elas não são burras, pelo contrário, entendem muito mais do que pretendem alguns adultos.

            Tia Nastácia era preta, gorda e empregada da família como nos contou Lobato, e daí? Tenho amigos queridos que são pretos. Preto é uma cor. Preto e negro são sinônimos, sempre foram, mas há pessoas que acham que preto é depreciativo e negro não. Por quê? Houve época em que dizíamos preto, outras épocas em que dizíamos afrodescendente e agora falamos negro. Percebe? É só uma questão do que uma época considera como correto. O preconceito não tem nada a ver com a palavra escolhida, está na maneira como encaramos e tratamos o outro. Tia Nastácia era sábia, conhecia aspectos da cultura popular que encantavam as crianças do sítio do pica-pau amarelo e também a todos nós que pudemos ler sem patrulhamento e nos apaixonamos por aquele personagem.

            Ser gorda também não é nenhum problema. Cada um pode ser o que quiser. Tem gente que é gorda e quer ser magra, ok, aí um regime deve ser encarado com seriedade, mas há gordos que optaram por essa condição, mesmo que os magros achem que isso é impossível. Acham que alguém só é gordo por fraqueza e chamar alguém de gordo passa a ser um xingamento. Mais uma vez o preconceito só está na cabeça desse magro. Estamos na época dos vegetarianos, dos veganos, dos loucos pelo saudável e do policiamento alimentar. Só esquecemos de que cada um come ou não come o que quer. Um adulto tem todo o direito de escolher sua alimentação que produzirá efeitos em seu corpo. Assim, ele será magérrimo, magro, gordo ou muito gordo por opção e quando alguém disser o que o corpo dele está mostrando não há qualquer problema. Não é politicamente incorreto é só a realidade.

            Não vi em qualquer livro de Lobato uma depreciação de Tia Nastácia pelo fato dela ser empregada no sitio. Pelo contrário, sempre foi tratada com muito carinho, seus talentos apreciados e seu trabalho valorizado. Então, qual o problema em ser empregada doméstica? Só o empregado da indústria, do comércio ou da área de serviços tem valor? Não podemos mais usar o termo "empregado" temos de falar funcionário, colaborador? Novamente é o preconceito de quem lê e não de quem escreve.

            Tenho muito medo do patrulhamento, dessa censura enrustida, desse preconceito ao contrário que quer decidir o que uma geração pode ou não pode ler. Que quer apenas o mais fácil, o que não precisa ser discutido, contextualizado, que não quer criar polêmica. Se fôssemos seguir ao pé da letra essa bobagem nunca mais poderíamos ler os escritores clássicos, autores de obras-primas que atravessaram séculos, mas que também trazem todo o peso cultural da época em que foram escritas.  Otelo, de Shakespeare, é um bom exemplo.

        Acredito que o que falta às pessoas é justamente muita leitura. A leitura apresenta mundos diferentes, épocas diferentes, personagens diferentes e ajudam a destruir o preconceito tão presente no politicamente correto.

                                                                                  São Paulo, 21/11/2017