SANTO ANTONIO

 

            Era junho e ela renovava as esperanças aos pés de Santo Antonio. Já tinha trinta e quatro anos e a última vez que havia namorado firme tinha sido aos vinte e dois com um colega de faculdade. De lá pra cá, nenhum relacionamento engatou. Não. Não precisava casar. Era uma mulher moderna e casamento não era o objetivo único de sua vida. Se acontecesse, ótimo. Mas, se não, só queria ser feliz. Porém, sentia falta de um companheiro de afeto. Amigos são ótimos e ela tinha muitos, mas amor e sexo é uma dobradinha que faz falta.

          E, por isso, lá estava ela marcando o ponto do dia 13. No fundo, não gostava do número 13 e Santo Antonio bem que podia ter escolhido outra data qualquer, mas quem era ela para contradizer o santo? Há quase dez séculos era assim. Conta a lenda que Santo Antonio ajudava as moças solteiras com moedas de ouro para compor seu dote e assim poderem se casar. Daí a crença de santo casamenteiro e de protetor dos humildes.

          A igreja estava lotada e a fila para pegar o pão bento estava enorme. Sua hora de almoço estava quase no fim e precisava retornar ao trabalho. Pensou em desistir, mas já estava lá mesmo e como iria fazer sem o pão? Entrou na fila, resignada. Para dizer a verdade, tinha um pouco de vergonha de estar ali e morria de medo de encontrar um conhecido. O que pensariam dela? Que ela era uma solteirona desesperada, provavelmente. Devia ter pego os óculos escuros e, quem sabe, uma echarpe.

        Depois de quase meia hora de espera, conseguiu, finalmente, pôr as mãos em um pãozinho. Era o seu prêmio. Pensou nas simpatias que iria fazer naquele ano. Sempre tinha uma nova que alguém lhe ensinava. Pensou que mesmo que não funcionassem seria divertido. Talvez se sentisse um pouco ridícula também, mas vai explicar o tal mistério da fé. 

        Pegou um táxi correndo que a deixou na porta do escritório. No fim, tudo tinha dado certo. Assim que saiu do táxi um menino de rua a abordou. Estava com fome e queria algo para comer. Ela lembrou do pão bento na bolsa, mas não. Não iria dar seu pão que havia sido tão difícil conseguir. Procurou uns trocados na carteira, mas já sabia que não tinha. Havia pago o táxi com cartão justamente porque não tinha dinheiro algum.

         O menino olhava para ela na espera. Ele não sabia do pão enrolado em um papel pardo, mas o problema é que ela sabia. Depois de uns minutos de indecisão, estendeu a mão e lhe deu o seu pãozinho tão precioso. Pãozinho de Santo Antonio. Pãozinho para trazer um amor. Pãozinho que só seria possível novamente depois de esperar doze longos meses.

        Pãozinho para matar a fome. O menino sorriu, agradeceu e foi embora.

        Ela olhou resignada seu pãozinho indo embora também, virou-se e subiu a escada do prédio correndo. Ainda estava atrasada. Na pressa, seu pé virou e ela rolou escadaria abaixo batendo a canela em todos os degraus. Lá embaixo, juntou gente, mas um homem insistiu em examinar. Era médico ortopedista. Uma torção. Subiram juntos até o seu consultório no mesmo prédio. Ele enfaixou. Não quis cobrar. Jantaram juntos na noite seguinte e na seguinte. Já faz uma semana e não se desgrudam. Parece que havia mesmo algo naquele pãozinho, mesmo não tendo nem o experimentado.

                                               São Paulo, 19 de junho de 2018.