SONHO

          Ele não acreditava em sonhos. Para dizer a verdade, quase nunca se lembrava de qualquer sonho e desconfiava de quem tinha sempre um sonho bom ou pesadelo pra contar. Lá no fundo, achava que era invencionice das pessoas para não dizer mentira. Afinal, invenções são sempre mais bem vistas do que reles mentiras.

         De qualquer forma, estranhou um pouco, mas não deu muita bola ao acordar naquele dia e se lembrar do sonho de forma tão nítida, como se realmente houvesse vivido aquilo tudo. Basicamente, ele se lembrava de que estava em casa sozinho, havia acabado de tomar café da manhã quando a campainha tocou. Pensou que não era comum alguém tocar a campainha tão cedo e que ele iria se atrasar para o trabalho. Abriu a porta da frente e viu uma senhora bem idosa no portão. Da porta mesmo, ele perguntou o que ela desejava.

          - Só conversar um pouco, meu filho.

         Pressentindo que ela quisesse vender ou pedir algo, de onde estava disse que estava ocupado.

         - Então está bem, meu filho. Eu volto amanhã.

          Ele fechou a porta e acordou.

        Na noite seguinte, o sonho recomeçou exatamente da mesma forma. E de novo, a senhora disse que queria conversar um pouco. E, novamente, ele se recusou dizendo que estava muito ocupado. Ao que ela assentiu, prometendo que voltaria no dia seguinte. Cinco noites, cinco sonhos exatamente iguais e dos quais ele se lembrava perfeitamente pela manhã.

         A sua esposa perguntava incrédula porque razão ele não escutava o que a senhora do sonho tinha a dizer, mas ele não sabia. Afinal, era um sonho sobre o qual não tinha controle. Ele não conseguia agir de outra forma.

         Na sexta noite, antes de dormir, algo lhe dizia que novamente ele iria ter o mesmo sonho e descobriu com uma certa ansiedade que aguardava por ele. Adormeceu. O telefone tocou, tocou, tocou. Não mais a campainha. Ele queria atender, mas não conseguia. Era um sonho diferente. O telefone não parava e ele parecia imobilizado.

        De repente, acordou assustado com sua esposa lhe entregando o telefone. Então não era sonho. Realmente, o telefone estava tocando. Era sua irmã avisando que sua mãe havia falecido. Lembrou da mãe em sua casinha no interior onde morava sozinha. Não conseguia se lembrar de quando havia ido lhe visitar. Talvez tivesse sido no Natal. Não. No Natal não fora. Ele havia viajado para o exterior. Talvez houvesse sido no seu aniversário há dois anos, mas não tinha certeza.

        Sua esposa imediatamente se lembrou do sonho. Então era ela que queria conversar com ele. Que bobagem! Uma coisa não tinha qualquer relação com a outra. E a senhora do sonho não era sua mãe. Ele a reconheceria. Reconheceria?

        Respirou fundo e avisou no trabalho que iria faltar. Uma sombra passou ligeira e ele a espantou com força. Não havia do que se culpar. Ele depositava o dinheiro para ela todo mês, religiosamente. Nunca poderiam dizer que tinha sido um mau filho.

 

                                                                       São Paulo, 19/06/2018