TÊNUE

          Explícita ou implícita? Sempre me pergunto pelos limites dessa linha tênue. Comumente, me engano. Se sou explícita demais, acabo dizendo o que não devo. Se sou implícita, as pessoas não entendem o que pretendo. Não importa, em ambos os casos me decepciono, ou comigo mesma ou com os outros.

          De vez em quando, gostaria de estar na cabeça das pessoas. Será que todo mundo também tem essas elocubrações estrabísticas? Também perde horas avaliando o fazer e o não fazer, o viver? Não me parece. Fico imaginando que talvez, só talvez, eu não seja assim muito normal. Sei que de médico e de louco todo mundo tem um pouco, mas será que no meu caso é só um pouco mesmo?

      Comecemos pelo começo. Quem é que perde seu tempo colocando no papel(desculpe, ato falho!) na tela do computador esse monte de textos sem sentido? Claro que toda gente derrapa de vez em quando, mas quem é que gosta de andar na beira do barranco querendo adivinhar o que tem lá embaixo? A estrada reta ou curva é o que interessa, mas eu insisto em olhar lá pra baixo buscando sei lá o quê. Claro que não dou bandeira.  Olho de canto de olho e quando ninguém está observando. Entretanto, do nada, aqui estou contando o que escondo. Vai entender.

          Olhe eu desviando de novo. A questão é que ninguém vem com manual de instrução e nessas conversas difíceis, locais perigosos onde o implícito tem de virar explícito, mas não demais, eu fico tentando ler o outro, convencida de que ele me dará todas as respostas ou me indicará o melhor caminho a seguir. Que tolinha! Nada! E só quando acende a luz vermelha, a buzina dispara e a trombada quase me põe a nocaute que eu percebo que exagerei na dose.

        Nem bem as letrinhas saíram de minha boca, já percebo o estrago. Corro a tentar colocá-las de volta, mas as rebeldes, felizes por estarem livres finalmente, não querem saber, de modo algum. em me obedecer. Pareço uma tonta, querendo recolhê-las no ar, tentando a alquimia de transformar granizo em chuva fresca.

          Como granizo sempre volta, fico um pouco ferida. Mas o estrago no outro é tão visível que procuro lá no fundo uma caixa de primeiros socorros que despareceu em alguma viagem. Resigno-me. Não acompanho com clareza a tal linha tênue. Talvez, quiça, da próxima vez.

 

                                                           São Paulo, 04 de junho de 2019