TORTO ARADO

             Torto Arado do escritor baiano Itamar Vieira chamou muita atenção de críticos e leitores ao ganhar três dos mais importantes prêmios de literatura. São eles, o prêmio Jabuti, o prêmio Oceanos e também o prêmio Leya, de uma das maiores editoras portuguesas. Como é algo raro de acontecer, era natural que o livro rapidamente ganhasse notoriedade.

           O primeiro capítulo de Torto Arado é uma aula de boa literatura. O leitor fica completamente impactado com o fato que ocorre com as duas irmãs, Bibiana e Belonísia. Elas são meninas que moram com a família no sertão baiano, muito pobres, e curiosas, descobrem uma faca nas coisas da avó. Como é uma faca bonita que não é comum, as duas crianças colocam a faca na boca para sentir o aço. Quando uma tenta tirar a faca da outra, as duas se cortam. Só que uma delas de forma mais grave, perde a língua, o que vai impedir que ela volte a falar.

         Como recurso narrativo que aguça a curiosidade do leitor, durante toda a primeira parte do livro, nós, leitores, não sabemos qual das duas meninas ficou muda. Inseparáveis, uma será a voz da outra. É ou não é uma ideia genial? Mas a história das irmãs vai ser o ponto de partida para o escritor aprofundar o contexto social, as condições em que a família de Bibiana e Belonísia viviam.

           Quando a escravidão acabou no Brasil, o problema do negro não foi cuidado pelo governo. Simplesmente, de uma hora para outra, o país tinha então um enorme contingente de pessoas que não tinham onde morar, o que comer, sendo que a grande maioria não sabia ler ou escrever. Vamos lembrar que o país teve mais de três séculos de escravidão e estima-se que tenham sido trazidos, ao longo desse tempo, mais de 4 milhões de africanos para serem escravizados. Mesmo que em 1888, na abolição, esse número fosse muito menor, ainda eram centenas de milhares. Então o que aconteceu? Essas pessoas saíram das propriedades em que eram escravizadas e começaram a buscar formas de sobrevivência.  Alguns ex-escravos foram parar nos quilombos, que eram as comunidades de escravos que fugiram da escravidão, mas a grande parte se empregou em fazendas para ganhar uma miséria, ou apenas, pela comida ou para ter onde morar. Ou seja, era só outra forma de escravidão.

          Esse era o caso da família das irmãs Bibiana e Belonísia na fazenda Água Negra, onde moravam e trabalhavam na roça. Eles não podiam nem construir uma casa de alvenaria, tinha de ser uma casa de barro, o que deixava bem claro que o pequeno trecho de terra onde moravam, podia ser cultivado, mas não era deles. E que podiam ser expulsos de uma hora para outra se não entregassem o combinado aos donos da fazenda, ou fizessem algo que desagradasse os proprietários.

          À medida que Bibiana e Belonísia foram crescendo, foram tomando caminhos distintos, o que é natural, mas sempre com a questão da mudez sendo levantada, já que separadas, uma delas ficou sem voz e teve que encontrar uma maneira de ter sua própria voz.

        Além dessa história belíssima, o pai das meninas era o grande entendido em religião e tradições dos antepassados africanos, sendo muito respeitado na fazenda pelos outros trabalhadores. Então a história também nos permite conhecer um pouco mais sobre os cultos e sobre essas tradições, enquanto nos surpreendemos com uma narrativa na medida certa, mostrando uma realidade duríssima, mas que não cai na armadilha de vitimar os personagens, pelo contrário, nos surpreendemos o tempo todo com a força de todos os personagens, principalmente os femininos.

        Uma curiosidade: Itamar Vieira Júnior começou a escrever o romance com apenas 16 anos. Quando já tinha 80 páginas, o original foi perdido em uma mudança e somente muitos anos depois é que Itamar retomou a ideia.

            Depois de ler Torto Arado é fácil entender porque é um romance tão premiado.

 

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=eK6Bj3jKg2Y

               

FICHA TÉCNICA

Título Original – Torto Arado

Edição Original – 2018

Edição utilizada nessa resenha – 2021

Editora Todavia - São Paulo

Número de páginas – 262