TRÊS DIAS

          São sempre três dias. Se o cômodo for pequeno apenas três manhãs, considerando que Deus ajuda a quem cedo madruga.

            Já disse que gosto de pintar paredes. Não requer nem muita habilidade, só prática e um mínimo de organização. E, claro, jamais, jamais querer fazer tudo de uma vez. Aí, o que poderia ser divertido, fica muito chato. Um cômodo por mês. Não mais do que isso.

       Desenvolvi o processo há muitos anos. Adoro essa coisa de criar processos pra tudo. Depois é só aprimorar e repetir, repetir, repetir. Louca? Só um pouquinho!

         O primeiro dia tem quatro passos.  Primeiro passo: tirar tudo que é possível do cômodo, colocar no meio aquilo que não é possível remover e cobrir. Segundo passo: fita crepe em portas, janelas, molduras e tudo o mais que o rolo não pode conhecer. Terceiro passo: cobrir buracos com massa sem deixar excessos. Quarto passo: passar a primeira mão de tinta sem cobrir onde foi passado massa. Pronto! Agora vá descansar porque já trabalhou demais para um dia só.

          No segundo dia: lixar onde foi passado massa e passar segunda mão. Deixar secar. Hora do recreio e de tomar um refresco no meio da manhã porque ninguém é de ferro. Examinar o serviço que já deve ter secado. Se necessário, passar a terceira mão.

          Terceiro dia: limpar e voltar tudo para o lugar. Ou não. Talvez seja o momento de trocar tudo de lugar e ver como uma nova cor e uma nova disposição de objetos mexem com a sua própria disposição. Gosto de mudanças, pelo menos, as pequenas mudanças. Por fim, dar uma boa olhada e perceber com aquela ponta de orgulho que o serviço foi profissionalíssimo.

             Na minha casa, quando era criança, e também na casa de todo mundo, existia o pintor de confiança que, de tempos em tempos, praticamente se mudava para a casa de gente e pintava tudo por dentro e por fora. Na minha casa, era o Seu Otaviano, um nordestino baixinho, calado, mas muito simpático que entendia tudo de pintura e tão conhecido que ficava em casa sozinho, pintando, se a família toda precisasse sair, viajar, evaporar. Seu Otaviano era a autoridade máxima em pintura.

            Lembro-me de olhar com admiração aquele homem pequeno naquela escada imensa, meio dependurado, se balançando pra lá e pra cá, sem jamais cair. Seu Otaviano, com um chapéu de jornal improvisado na cabeça, não era só pintor, era um equilibrista também. E mágico! De repente, o que era um branco sem graça se transformava em um céu azul. Um pobre bege virava ouro e até um cinza morte encontrava um vermelho vivo. Tudo ficava mais alegre com a mágica de seu Otaviano.

            Acho que sempre quis ter o dom de seu Otaviano e, por isso, durante três dias, me esforço tanto para encontrar o coelho dentro do galão de tinta. De vez em quando, juro que consigo vê-lo fantasiado de arco-íris.

                                                                    São Paulo, 15/05/2018