UM DIA SÓ DELA

 

          Eu nem sabia que existia um dia só dela. Com o tempo, ela é só uma coceira que, de vez em quando, ataca. Mas, como coçar é tão bom quanto comer, nesse seu dia, permito-me coçar, coçar muito, ou melhor, sentir saudade. E, como dizia o velho ditado, comer e coçar é só começar. 

          Então, lá vai a saudade abrindo portas há muito trancadas. Vai longe buscar as risadas, o aroma do biscoito de polvilho assando no forno, o gosto doce do leite com calda de açúcar que minha mãe preparava nas noites de frio. Saudade de mãe é como um abraço de braços enormes que nos enlaçam. Não há dor. É saudade boa de sentir. Dá até pra fechar os olhos e receber um beijo.

          Já a saudade de pai tem outro cheiro. Ainda consigo sentir o respeito que ele nos impunha, mas que desaparecia como em um passe de mágica, quando ele começava a cantar. Sempre as mesmas músicas que até hoje sei de cor e que me fazem sorrir quando as escuto. Como alguém pode fazer sorrir outro alguém depois de tantos anos de sua partida?

       Há a saudade de uma época inteira como da adolescência. Quantas aventuras comuns que pareciam tão extraordinárias naquela época. Cabular aula, experimentar escondido o primeiro(e último) cigarro, férias na praia andando de lá pra cá, fingindo não ver aquele ser que nos interessa. Calças boca de sino, mini blusas, mini vestidos, mini tudo e a certeza comprida de ser invencível.

        Saudade de trabalho existe? Claro que sim. Daquele trabalho que nos realizou, que nos permitiu produzir coisas belas, que fez a diferença na vida das pessoas. E também das pessoas que trabalharam conosco. Nenhuma produção é solitária. Até a escrita, essa tarefa tão sozinha, só está completa, se houver um leitor.

          E a coceira antes tão suave, aumenta tanto que me lembra uma época em que todas as minhas amigas de colégio e eu, inclusive, tivemos sarna. Como coça! É um outro tipo de saudade, saudade do que não aconteceu. Essa é a saudade mais doída. Lembro ainda dos planos, de como seria maravilhoso. Imagino cenários, conversas, afetos de todos os tipos e sinto uma pena enorme de mim e do que perdi.

            Até pra sentir saudade é preciso coragem.

 

                                                                      São Paulo, 30/01/2018