UM IGUAL

             O que são os iguais em um processo de criação?

           Calma! A frase ficou confusa. Vou me explicar melhor. O que significa para os artistas conviverem com outros artistas? O que traz de importante para quem não tem qualquer obrigação de produzir algo, saber que outro artista está produzindo?

              Na minha modesta opinião: tudo.

         O artista não tem um chefe. Não tem de cumprir expediente. Não tem ninguém lhe obrigando a fazer nada e, justamente por isso, apesar de terem talento, muitos desistem. Não é fácil fazer seu próprio caminho sozinho. Igualmente, é muito difícil se ter a exata noção do valor de sua própria obra. Todo artista quando ainda não tem o reconhecimento do público e, às vezes, até tendo esse reconhecimento, sente-se um engodo. Por isso, os iguais são tão importantes.

          Mario de Andrade escrevia para Drummond que escrevia para Manuel Bandeira que escrevia para Guimarães Rosa:

        “...Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás, todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão?

          O sertão é uma espera enorme.

          E o silêncio?

         O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.

Ah, Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:

         O diabo não há! Existe é o homem humano.”

            E então, Rosa recebia o aval poético de um Bandeira e sua obra respirava aliviada. É isso que um igual faz: dá acalanto, troca ideias, olha a obra alheia com respeito e carinho, incentiva outro igual a continuar.

           O igual conhece os medos e as inseguranças. Trilha o mesmo caminho obscuro sem mapa ou bússola, tateando, colocando pé ante pé numa marcha que titubeia com receio do precipício.

            Tem dias cinzas que chamo meu igual para tomar café. Preciso de um café com carinho, encorajamento, estímulo que me instigue, me incite, que generosamente coloque querosene no meu candeeiro prestes a apagar. E então, a mágica se dá. Falamos de literatura, de todo tipo de literatura, de projetos começados, acabados, sonhados em torno das letras que vão se escrevendo no espaço abstrato do nosso desejo. As letras se entrelaçam, escrevem novas histórias, se percebem letras com direção e propósito

          O café forte acaba. Chamamos outro café e mais outro.

          Olho para o meu igual e mudamente o reconheço mais uma vez.

          Vou embora fortalecida. Repleta de cafeína, de querosene e de gratidão pelo meu igual.

 

 

 

                                               São Paulo, 20/08/2019