UMA CIDADE DE RESSACA

          Choveu!! Viiixi, como choveu!

        Mas não vou falar da chuva. Já bastam os noticiários falando de chuva até quase nos afogar, com a desgraça sendo desgraça e batendo índices de audiência.

        Vou falar do dia seguinte e de uma cidade literalmente lavada, mas suja. Hoje cedo, ainda podíamos ver galhos, folhas, lixo e mais lixo espalhados pelas ruas. Lembrou-me um bêbado na manhã seguinte a um porre homérico, com a roupa amassada, expressão perdida, olhar longe, sem saber direito qual caminhão o atropelou.

     Todos os carros andavam devagar, os pedestres, apesar da garoa intermitente, também andavam devagar, as lojas abriam suas portas de ferro, lentamente, sem pressa de ganhar o pão nosso de cada dia.

        Sinto no ar uma dor de cabeça, típica de ressaca, um estranhamento misturado com tristeza. Como eu, milhões de paulistanos temem ir trabalhar. A chuva, apesar de muito mais fraca, persiste, e os nossos dois grandes rios não querem engolir nem mais uma gota. Parecem crianças fechando a boca para o remédio amargo, apesar da ameaça da mãe natureza de inundar tudo de novo.

     Ouço um especialista em tempo prometendo que hoje tudo será diferente. Acredito. Quero acreditar. Ninguém merece tanto problema, quanto mais uma cidade que se esforça tanto. Os milhões de paulistanos(e de todos os estados brasileiros que aqui moram) estão de ressaca sim, mas são guerreiros e vão para o trabalho, para a escola, para todas as suas obrigações, apesar do medo,  e eu sinto um orgulho enorme do meu povo.

        Chego a me emocionar ao ver os pontos de ônibus cheios, mesmo sem a alegria e a disposição habituais. A resiliência do paulistano que enfrenta o trânsito, filas e  locais lotados e agora, também as enchentes, é impressionante. Não é à toa que somos a locomotiva do país e do continente. Temos consciência de todos os vagões que precisam que continuemos nos trilhos, lentamente, mas sempre nos trilhos.

                                               São Paulo, 11/02/2020