VIÚVA NEGRA

          Às vezes, finjo que não vejo. Outras vezes, finjo que não escuto. E a tempestade prestes a desabar fica suspensa por um cordão invisível aos olhos, mas concreto demais para ser ignorado. Tudo fica adiado para outro dia, outra semana, quiçá, para nunca mais.

          O céu continua negro como a noite. O ar tem cheiro de enxofre e as pessoas vestem escuro como deve ser. Não se vai mais à praia ou tomar sorvete. Espera-se.

        Sempre aspiro por tempestades que resolvem desaguar em outras paragens e até mesmo aquelas que se dissipam milagrosamente. São tempestades compreensivas que entendem que o chão já está por demais encharcado, e que não haverá drenagem suficiente para evitar o desmoronamento de barrancos frouxos.

        Olho pela janela e não consigo dizer o quanto essa tempestade é compreensiva. Não me parece nem um pouco. Parece brava como uma velha viúva amargurada com seu luto.

           Quase posso ver a terra que corre com a água numa mistura barrenta que derruba paredes e mata jardins. Tenho medo. Por isso finjo cegueira. Mas a viúva sabe que não é por muito tempo e aguarda paciente esfregando as mãos e salivando vitória.

            As palavras vêm ao céu da boca e pairam desgovernadas à espera de serem capturadas e ganharem sentido, mas eu as ignoro. Sentido perfura nuvens pesadas como uma faca corta sonhos doces. Se não vejo e não escuto, nada acontece.

            E tudo poderia ser para sempre. Se para sempre não morasse tão longe.

           Arrisco um pé na porta de galocha e capa de chuva. Seguro já morreu de velho, dizia minha avó. Entretanto, a viúva agora sabe que eu a vejo. Deveria ter escolhido sandália e vestido branco de alcinha. Erro de principiante. Justo eu que faço esse jogo de faz de conta há milênios?! Sinto o pingo grosso e frio em meu braço. Nem bem me enxugo e outro e outro e outro caem. Raios machucam os olhos, mas não cegam. Trovões ensurdecem, mas não matam. E a água volumosa, gelada, impiedosa cai sobre mim até eu desaparecer pequena.

          Não sei por quanto tempo ficarei submergida. Há uma correnteza que arrasta e empurra para baixo. Subo à tona apenas para tomar ar e volto a submergir. Vejo destroços boiando por sobre minha cabeça. Pedaços de tudo arrancados de seus quebra-cabeças seguros, emoldurados há tempo, nadam ao meu lado.

          Se tudo fosse um conto de fadas haveria um mar e uma enorme baleia e Jonas me levaria para outras terras. Mas a vida deságua em represa de rio morto e não há aventura na água de casa. Só lava a roupa.

                                                           São Paulo, 17/04/2018