ÓCIO

          Como boa “workaholic” que se preza, sempre me sinto culpada se me permito alguns minutos de ócio. Ócio de verdade. Sem televisão, livro, telefone ou rede social. Deitada na rede ou no sofá, sem fazer absolutamente nada, a não ser pensar e ver o que normalmente não enxergo.

          Se estou ao ar livre, a formação das nuvens e o movimento do vento balançando plantas e curvando árvores chama a minha atenção. Dentro de casa, a mosca tentando achar o caminho da janela e voltar à liberdade é o detalhe que eu nunca enxergo no dia a dia.

          Já há algum tempo, me obrigo ao ócio. Sofro de ansiedade crônica e o ócio é um remédio para libertar a mente e desafogar o coração. Nas primeiras vezes, foi muito difícil. Só conseguia pensar nas zilhões de tarefas por fazer e eu ali, de papo pro ar. Parecia mais uma loucura do que uma terapia para qualquer coisa. Mas até para o ócio é preciso treino e persistência.

    São nesses raros momentos ao longo de uma semana sempre atarefadíssima que me percebo por inteiro, que consigo recordar momentos preciosos, que fantasio o futuro e que tenho minhas melhores ideias. Acho que é o tal ócio criativo. Mas não, não tenho obrigação de ser criativa ou de ter pensamentos geniais. Pode acontecer, mas esse não é o propósito.

       O ócio é apenas para parar e respirar fundo. Só preciso eliminar a culpa e lembrar o quanto parar me faz bem.

        Se o telefone toca, se o whats apita, se o mundo se agita, é preciso ignorar. São poucos minutos. Nada é tão importante que não possa esperar. Como as pessoas viviam antes das invencionices tecnológicas? Era o tempo da carta, do mensageiro, do jornal impresso. Tudo era mais lento e nem por isso era pior.

            Fecho os olhos e ouço o vento enquanto meu ruído interno, sempre tão ensurdecedor, abaixa de volume. Um cão late ao longe. Um passarinho canta e outro responde. Minha língua pede água. Minhas pernas esticadas dão paz ao meu joelho. Minhas mãos descansam longe das letras. Isso é o ócio. Tudo e nada.

 

                              São Paulo, 13/10/2020