INFÂNCIA

            Infância de Graciliano Ramos é um livro autobiográfico e vai falar justamente da infância do escritor alagoano. Lançado apenas em 1945, a história se situa bem antes disso, uma vez que o autor nasceu em 1892.

         Ao relatar sua infância nada alegre, Graciliano vai nos mostrando como era difícil ser criança naquele tempo, final do século XIX e início do XX, principalmente, no nordeste, onde as crianças tinham ainda menos voz. A criança era oprimida pelos adultos, não se metia em conversa de adulto, não podia ter vontade, só obedecia.

       É fácil perceber, à medida que vamos lendo, como essa infância marcou Graciliano pelo resto da vida. Por mais que o escritor tenha colocado algumas passagens ficcionais, há uma busca verdadeira por sua infância, não apenas pelos fatos, mas pelos sentimentos que ela lhe provocou. Isso vai aparecer novamente em Angústia, outro livro famoso do escritor.

        Mas acreditamos que para começar a estudar a obra de Graciliano é preciso justamente começar por Infância. O próprio Graciliano quando questionado em entrevista para contar sobre sua infância dizia que não havia mais o que dizer, que tudo estava contado nesse livro.

         Além de todas as dificuldades próprias de uma criança naquela época, Graciliano ainda sofria de uma doença que fazia com que seus olhos inchassem e não permitiam que ele enxergasse. Então, quando ele tinha essas crises, ficava dias trancado no quarto sozinho, tornando-se ainda mais introspectivo.

           O que mais chama atenção em Infância é o relato de como foi dolorido para o escritor criança aprender a ler, o que ele chama de “malditas letras”, também aprender a se acostumar com a escola que ele considerava um verdadeiro suplício e onde a palmatória, ainda era utilizada. Graciliano teve muitas dificuldades de alfabetização e só conseguiu aprender a ler depois dos nove anos.

          Apesar de ter nascido em Quebrangulo (Alagoas), a fazenda de seu pai em Quebrangulo entra em decadência. Assim, no período da infância para adolescência, relatado no livro, sua família muda-se sucessivamente, para Buíque (Pernambuco), Viçosa (Alagoas), Maceió e depois retorna à Viçosa, sempre fugindo da seca. As escolas que Graciliano frequentava iam mudando nesses lugares, mas não havia qualquer melhora na visão do pequeno Graciliano. As escolas não se tornavam mais acolhedoras.

          Seus pais eram muito rigorosos. O pai, como era o costume da época, era o patriarca, o senhor da família e para educar e fazer valer suas vontades utilizava gritos e surras. Também a mãe de Graciliano era uma mulher seca, incapaz de carinhos e que dá ao filho o apelido horrível de cabra-cega por causa de sua doença.

          Além do valor de um livro como de memórias que nos permite conhecer melhor a vida de um dos principais escritores brasileiros, a riqueza da história também está no painel que o escritor consegue fazer de seu meio cultural e de seu tempo, indo muito além de sua própria Infância. Gosto principalmente do trecho:

 

O ponto de reunião e fuxicos era a sala de jantar, que, por duas portas, olhava o alpendre e a cozinha. Como falavam muito alto, as pessoas se entendiam facilmente de uma peça para outra. Nos feixes de lenha arrumados junto ao fogão, na prensa de farinha, nos bancos duros que ladeavam a mesa, a gente se sentava e ouvia as emboanças do criado, um caboclo besta e palrador. Rosenda lavadeira cachimbava e engomava a roupa numa tábua. O moleque José e a moleca Maria esgueiravam-se da sombra, perdiam a condição e a cor, não se distinguiam quase dos meninos de Teotoninho Sabiá.

 

       Essa cena absolutamente familiar, inclusive com a presença dos empregados, relata-nos muito sobre a estrutura da sociedade da época. Como o livro se passa há mais de um século e consegue retratar o momento histórico e cultural, claro que há passagens que, se fossem escritas hoje, seriam absolutamente condenáveis como, por exemplo, quando surgem claras manifestações de racismo.

         Isso não significa que não devamos ler determinados autores. Pelo contrário. Eles são o retrato de sua época. Devemos ler, perceber o absurdo de se pensar daquela forma e não repetir o erro, mas reconhecer a importância de obras literárias como é Infância.

 

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=RWDVwkE3DwU

 

FICHA TÉCNICA

Título Original – Infância

Edição Original – 1945

Edição utilizada nessa resenha – 1995

Editora Record/Altaya – Rio de Janeiro

Número de páginas – 266

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