1984

 

 

        Na minha opinião, os 3 melhores romances de distopia de todos os tempos são: Admirável Mundo Novo, O conto da Aya e 1984. Lembrando que distopia é o oposto de utopia. Enquanto que utopia é o mundo perfeito em que tudo dá certo. Distopia é justamente quando a sociedade dá errado, quando a sociedade vive em condições insuportáveis de opressão.

            O livro 1984, do escritor inglês George Orwell é um clássico há décadas. Foi lançado em 1949 e é justamente para esse romance que foi criada a expressão Big Brother, ou Grande Irmão, que se popularizou e virou até título de reality show.

          Aliás, o escritor também lançou em um ensaio a expressão Guerra Fria que depois foi adotada em todo o mundo. Ele era realmente bom em criar novas expressões.

        George Orwell, na verdade, era o pseudônimo do escritor e jornalista Eric Blair que nasceu nas Índias Britânicas, quando a Índia era uma colônia inglesa, mas que ainda muito criança foi morar na Inglaterra com sua mãe e suas irmãs, enquanto o pai trabalhava na Irlanda.

         Desde criança, Eric Blair era fã de um outro escritor chamado Herbert George Welss que escreveu A Moderna Utopia. Então se prestarmos atenção ao seu pseudônimo, George Orwell,  ele claramente foi inspirado no seu escritor predileto George Wells, que vai escrever livros considerados visionários como A Máquina do Tempo, O Homem Invisível e a Guerra dos Mundos e já trabalhava romances em que abordava utopias e distopias. Então, é possível perceber facilmente que ele foi um grande influenciador da obra de Eric Blair, mais conhecido como George Orwell.

          Além dessa influência, Eric Blair também estuda em Eton, onde tem aula com Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo, que eu citei logo no início.

        O antigo professor escreve uma carta quando lê 1984 em que compara os dois romances distópicos. Ele diz: “eu sinto que o pesadelo de 1984 está destinado a ser modulado ao pesadelo de um mundo mais semelhante ao que eu imaginei em Admirável Mundo Novo. A mudança surgirá como resultado de uma necessidade sentida [pelo governo] para o aumento da eficiência.” Ou seja, Aldoux Huxley, elegantemente disse que a sua própria ideia era melhor do que a de seu antigo aluno.

       Quanto à história de 1984, primeiramente, é necessário ressaltar que é bastante original usar números, no caso apenas uma data para título de um livro. Lançado em 1949, a história obviamente, como o próprio título anuncia, se passa no futuro, em 1984, e descreve uma sociedade governada por um estado totalitário em que os indivíduos não têm qualquer liberdade.

          Existe um partido que determina o que cada pessoa pode e não pode fazer. Para se ter uma ideia, nem sexo elas podiam fazer, a não ser que fosse no casamento para reprodução. Um verdadeiro pesadelo, como observou Huxley.

          Nessa sociedade completamente opressora, o personagem principal, Winston Smith, de 39 anos, é só mais um trabalhador obscuro do Partido. Ele é encarregado de mudar a história para servir aos objetivos do Partido. Então, por exemplo, se no passado, alguém foi considerado um herói, mas depois fez qualquer coisa que desagradasse o Partido, todas as notícias do passado eram modificadas ou apagadas pelo departamento em que Winston trabalhava. Ironicamente, o Departamento de Winston era chamado de Ministério da Verdade, quer dizer, a verdade do Partido, e não a real. Da mesma forma, qualquer pessoa que fosse contra o Partido desaparecia ou era morto.

         O interessante é que até uma nova língua o Partido estava criando, chamada Novilíngua, pois a linguagem está diretamente ligada à capacidade do indivíduo de se articular. A novilíngua era muito mais pobre em palavras e expressões, pois quanto menos vocabulário um indivíduo tem, quanto menos uma pessoa lê, mais dificuldades ela terá de se expressar e de entender o que está acontecendo à sua volta. Exatamente o que o Partido queria.

          A história se passa em uma Londres, uma cidade completamente desfigurada daquela que conhecemos, muito diferente da Londres de hoje. E Londres, por sua vez, no livro, é uma das principais cidades da Oceania, uma das três regiões de estados totalitários em que o mundo foi dividido, após uma guerra global.

         A foto do chefe do Partido conhecido como Grande Irmão, ou Big Brother, estava por todos os lados. Os cartazes traziam a frase O Grande Irmão está de olho em você! O mais interessante é que nunca esse Grande Irmão era visto pelas pessoas, apenas em fotografias. Ou seja, mesmo que ele fosse uma ficção, nunca tivesse existido, ou até já tivesse morrido, o Partido continuaria a celebrá-lo para que jamais perdesse o poder. Além disso, em todas as casas, em todos os escritórios existia uma teletela, um aparelho que, ao mesmo tempo que ficava passando as notícias que o Partido queria que o povo acreditasse, também servia para vigiar as pessoas. E qualquer ato estranho era visto e punido. Por isso que os reality show usam a expressão Big Brother porque há sempre uma câmera vigiando, exatamente como no livro, 1984.

         Vamos lembrar do contexto em que o romance foi escrito. O que está acontecendo em 1949, quando o livro é lançado? O mundo está vivendo o pós segunda grande guerra.  EUA e União Soviética estão em plena Guerra Fria, que era um conflito político e ideológico, sem armas. E o escritor George Orwell estava preocupado em retratar o Totalitarismo, seja de direita ou de esquerda. Na época, ele havia sido impactado pelo totalitarismo de direita que era o Nazismo que culminou na segunda grande guerra, e depois pelo totalitarismo de esquerda que era o comunismo que vigorava na União Soviética. Então o escritor conseguia enxergar primeiro todos os problemas que acontecem quando o mundo se polariza entre direita e esquerda e depois como a extrema direita e a extrema esquerda gostam do totalitarismo. De querer impor sua maneira de pensar à força. E é disso que se trata o livro. Ele mostra o quanto a sociedade e a vida humana perdem se um regime totalitário assume o poder.

          Através do personagem principal, o Wiston, nós leitores vamos vivenciar os horrores do totalitarismo e perceber como é fácil o povo ser enganado por um regime desses. Claro que é um tema muito atual. Não só no Brasil, mas muitos países vivem uma polarização ideológica e nós temos de ficar muito atentos para não deixarmos que nem um lado, nem outro vença, pois toda vez que temos uma polarização, o que perdemos é o equilíbrio que sabe extrair o que cada lado tem de bom e excluir o que tem de ruim.  

       Além disso, extremos sempre são totalitários justamente porque não conseguem o equilíbrio, então querem impor suas ideias à força e para isso tiram todos os direitos democráticos. Costumo dizer que quem está nos extremos, nunca enxerga totalmente.  Até por uma questão física, enxerga só o seu ladinho. O autor de 1984 acreditava apenas em governantes democráticos que respeitassem a liberdade dos indivíduos. Essa é a grande mensagem do livro.

          George Orwell ficou conhecido por seu forte senso de justiça. Morreu de tuberculose quando tinha apenas 46 anos, mas deixou uma obra que sobrevive até hoje. Além de 1984, um outro livro seu, A Revolução dos Bichos, também faz enorme sucesso.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=H_4Q2fr3ZF8&t

FICHA TÉCNICA

 

Título Original –  1984 - Nineteen Eighty-Four

Edição Original – 1949

Edição utilizada nessa resenha: 1978

Companhia Editora Nacional – São Paulo

Páginas: 280