A PAZ DURA POUCO

          Apesar de terem sido escritos como livros independentes, O Mundo se Despedaça, de 1958, A Paz dura Pouco, de 1960, e A Flecha de Deus, de 1964, devem ser compreendidos como uma trilogia de romances que ajuda a pensar a colonização britânica na Nigéria.

          Chinua Achebe, considerado o pai da moderna literatura nigeriana, em A Paz Dura Pouco, seu segundo livro, dá um salto de duas gerações na sua história e o protagonista Obi Okonkwo é o neto do protagonista de O Mundo se Despedaça, que era conhecido apenas como Okonkwo. É como se a história continuasse, entretanto, não há no novo romance, uma preocupação de resgatar o livro inicial da trilogia.

         Se em O Mundo se Despedaça, o povo igbo teve seu primeiro contato com o homem branco, em A Paz Dura Pouco, Ibo, o protagonista, já foi, inclusive, fazer faculdade na Inglaterra, o que era considerado uma grande honra na tribo. Ele foi o primeiro de toda Umuofia a estudar no estrangeiro, o que eles chamam de além-mar. Então não há mais o estranhamento inicial, e o povo da aldeia de Obi tenta equilibrar suas antigas tradições com a cultura do homem branco. O quê, sem dúvida, é um quebra-cabeças muito difícil de se montar.

         Obi tinha muitos sonhos de realizar grandes feitos, principalmente, libertar sua terra dos vícios do homem branco como a corrupção. Entretanto, quando volta da Inglaterra, vai morar em Lagos, capital da Nigéria, trabalhar em um dos escritórios do governo e, diariamente, é tentado com ofertas de corrupção.

          Começa a viver em um estilo de vida que nunca tinha tido até então o seu. Possui um apartamento, um carro com motorista e ainda tem de pagar o empréstimo que sua tribo lhe fez para que ele pudesse estudar na Inglaterra. Ou seja, ele assume o estilo de vida do colonizador inglês.

           Apesar de ter sido criado como cristão e não ter mais várias crendices de sua tribo, ele desafia sua cultura ficando noivo de uma moça chamada Clara que é uma osu, uma espécie de pária condenada para sempre, bem como seus filhos, netos e toda sua descendência. Para o povo de Obi ser uma osu era quase como ser um leproso, e trazia muita vergonha à família.

       O final do livro não surpreende. Toda a trajetória de Obi Okonkwo caminha para um final previsível que já é, inclusive, anunciado na primeira página. Ele está em um tribunal e o juiz diz: "Não consigo entender como um jovem com a sua educação e com um futuro brilhante pela frente pôde fazer uma coisa dessas”.

          É isso. O que importa são as lembranças de Obi, o processo que ele viveu para chegar até aquele momento em que o livro começa e nos possibilitar entender como aquilo que o juiz não entende, e talvez nem o próprio Obi, se tornou possível.

     É o quadro do conflito de culturas muito distintas, tão bem construído por Achebe, e sua visão de como é difícil respeitar a ambas, que faz a riqueza do livro.

Vídeo-resenha - https://www.youtube.com/watch?v=DQ1Mm7xEgTQ

FICHA TÉCNICA

Título Original – No Longer at ease

Edição Original – 1960

Edição utilizada nessa resenha – 2013

Editora Companhia das Letras – São Paulo

Número de páginas – 200