
Miriam Bevilacqua
Literatura, Comunicação,Educação
A VELHA DAMA
A VELHA DAMA

A política me encanta e me enfada.
Essa famosa dama que atravessa a nossa vida sem pedir passagem, e que, às vezes, coloca nossa vida no prumo, em outras, simplesmente, vira tudo de ponta-cabeça.
Não costuma ser bem frequentada. Abre sua casa para uns tipos bem vagabundos e o pior, demora para expulsá-los. Flerta com uns, se apaixona por outros, mas todos, sem exceção, um dia são abandonados por ela ou lhe abandonam, seja por morte, por cansaço ou por total desprezo. Ela não se importa. Tem sempre alguém batendo à sua porta, querendo entrar.
Tem dias que acorda sorridente, se arruma e, com fala mansa, quase se passa por uma senhora respeitada. O povo se ilude, acredita. Mas tem outros dias que parece ter fugido de um bordel. Com maquiagem borrada, aos gritos, pratica atos insanos. E o povo se assusta.
Para se garantir, costuma anotar tudo em um caderno grosso que ela chama de História. E na História, nossa dama não poupa ninguém. Conta todos os segredos, até mesmo os de alcova. Mas alguns tipos não se importam. Há muito perderam a vergonha na cara e como vão aparecer no caderno da História, não lhes interessa. O importante para esses, é arrancar tudo o que podem da velha dama.
Além disso, esses tipos ainda contam com a ignorância reinante. Apesar da previdente dama distribuir cópias e mais cópias do seu grosso caderno, alguns jamais o lerão, outro lerão e não entenderão absolutamente nada. Nessas horas, a dama chora.
Nos últimos tempos, a dama anda apreensiva. Corre de lá pra cá nesse vasto lugar chamado mundo. Quer se fazer ouvir, mas loucos são piores do que vagabundos. São loucos, só escutam as vozes dissonantes em suas cabeças. Ela já viu esse filme e conhece o final.
Recolhida em seu quarto escuro, com a caneta na mão, ela hesita. Tem momentos que a cansada dama não quer escrever mais nenhuma linha em seu caderno. A dama imortal não gosta de páginas manchadas de vermelho.
SP 06/01/2026