ABSURDOS DO SÉCULO XXI

 

         Reli Don Quixote há pouco tempo. Adoro os absurdos dos romances de cavaria que Cervantes queria ridicularizar. Mas, que ninguém duvide: todos os tempos têm os seus absurdos. Quer ver?

          Outro dia me peguei em uma discussão em que um ser dizia que era perigoso tomar vacina e por causa disso não iria tomar a vacina contra Covid-19. A minha vontade era de esquecer que algum dia fui elegante e chamar esse mesmo ser de ignorante. Perguntar se ele fugiu da escola, enfim, o que aconteceu para se tornar um negacionista. Não tenho mais paciência. Encerrei a conversa.

         Da mesma forma, em outro momento, alguém queria me convencer que religião era fundamental, ao que eu rebati: Fé é fundamental, as religiões são feitas por homens e, portanto, completamente duvidosas. Pra quê? Consegui irritar católicos, protestantes, umbandistas, espíritas e sei lá mais quem. Não conseguia fazer as pessoas entenderem nem o básico:  você pode ter fé sem seguir nenhuma religião, pois fé e religião são coisas diferentes. Como depois de estudar ou apenas se informar de todos os erros cometidos pelas religiões, alguém não consiga enxergar o óbvio?

          Para completar, uma amiga me manda uma foto de uma roupa linda que ela está experimentando para um evento familiar super importante. Pede a minha opinião. Eu dou, dizendo a ela para comprar correndo porque o vestido ficou realmente lindo em seu corpo. Ela concorda toda feliz. No dia seguinte, ligo para ela e pergunto pelo vestido. Ela me conta que não comprou porque também pediu a opinião do marido e ele ficou bravo porque o vestido era decotado demais. Quase caí da cadeira. Como que uma mulher inteligente, madura, que não depende desse marido para nada, aceita não comprar algo que havia gostado tanto só porque o marido machista falou do decote? Pensei em emendar um discurso feminista, mas fiquei com pena e me calei.

        Pois é! Don Quixote e seus moinhos de vento, que ele acreditava serem gigantes, já não me parecem tão absurdos. É muito fácil encontrarmos “tristes figuras” por aí, acreditando em teorias e pessoas que não lhes ajudam em nada! São tantas as situações do dia a dia sem pé nem cabeça, que eu gostaria muito de ter a paciência de Cervantes e escrever um romance, uma paródia, mostrando o desatino de todas essas situações. Infelizmente, não sou nem tão talentosa e nem tão elegante quanto Cervantes.

               São Paulo, 03/08/2021