ALMAS MORTAS

              É comum alguém perguntar: você já leu os russos? Você gosta dos russos? Como se fosse possível alguém já ter lido todos os russos.

          Então, antes de mais nada, quando alguém faz esse tipo de pergunta, ela está se referindo a poucos escritores russos, os escritores mais importantes e que fizeram a fama da literatura russa. Que escritores são esses? São os escritores da chamada Era de ouro ou era dourada que começa com o poeta Pushkin, mas também vai contar com Tolstoi, Dostoiévski e Gógol. Há outros? Claro que sim. Mas são esses quatro os mais importantes e conhecidos. A era dourada, que dura cerca de 80 anos, vai ser marcada pela introdução do romantismo na literatura russa, mas que vai chegar também ao realismo, justamente com um conto de Gógol chamado O Capote, o qual vai inaugurar o realismo na literatura russa, e vai ser seguido por outros escritores. Dostoiévski chegou a dizer: "somos todos filhos de O Capote de Gógol".

        Anos depois, com a formação da União Soviética e o estabelecimento do comunismo, a literatura russa teve um declínio grande porque tudo era censurado. E só com o fim da União Soviética que conseguimos observar o renascimento da literatura naquele país, com excelentes escritores contemporâneos como a ganhadora do prêmio Nobel de 2015, Svetlana Alexiévitch.

           Hoje, vamos falar da obra máxima de Gógol, que é o livro Almas MortasPrimeiro é preciso entender que a escrita de Gógol é muito diferente da de Dostoiévski. Dostoiévski é mais denso, mais introspectivo, enquanto Gógol é irônico e conversa o tempo todo com o leitor. Dostoiévski quer aprofundar o perfil psicológico dos personagens, Gógol quer mostrar as mazelas da sociedade.

          É preciso entender também em que contexto Gógol escreve. Estamos falando da época do grande Império Russo, quando ainda existia a monarquia com os czares e que só foi derrubado com a revolução de 1917.

          O Império Russo era enorme, compreendia inúmeros países e para se ter uma ideia, eles eram donos até do Alasca, se estendendo o Império por 3 continentes. Só que era um Império baseado no feudalismo e na estrutura agrária. A população era muito pobre. Só quem tinha dinheiro eram os senhores feudais, os donos das terras.

        Além disso, os servos que trabalhavam nas propriedades eram praticamente escravos. O sistema de servidão dizia que eles podiam trabalhar nas terras, mas não podiam deixá-las e quando uma propriedade era vendida, os servos eram vendidos junto. Os senhores feudais podiam fazer o que bem quisessem com os servos, só não podiam matá-los.

         Almas Mortas foi publicado em 1842, e a sua história se passa quando o sistema de servidão ainda vigorava na Rússia. Esse sistema só vai terminar quase vinte anos depois, em 1861. Os servos eram chamados de almas. Um senhor feudal se dizia dono de tantas almas e, como já falado, ele dispunha dessas almas como bem entendesse.

        O livro começa com o personagem principal, o Tchítchikov, rodando o interior da Russia com seu cocheiro e seu criado, indo de propriedade em propriedade rural comprando almas mortas. O que é muito interessante é que Gógol não nos conta porque ele quer servos mortos. Coisa que os senhores feudais também não entendem, mas vendem assim mesmo porque eles pagam um imposto sobre as almas e até o próximo censo quando eles puderem declarar que os servos morreram, esse imposto continua sendo cobrado. Então, para o senhor feudal é um ótimo negócio se livrar logo das almas mortas e não ter que pagar o imposto que passa então a ser pago pelo Tchítchikov.

         Esse mistério é muito bem conduzido por quase toda a primeira parte do livro. Nós, leitores, assim como os proprietários das terras imaginamos que tem algo de errado porque as almas são vendidas como vivas, mas é desse mistério que Gógol se utiliza para prender nossa atenção e que serve como fio condutor para o personagem ir nos mostrando, enquanto viaja, todos os problemas do interior da Rússia.

          Gógol pinta uma sociedade atrasada, moralmente deteriorada. Além disso, parece que há uma letargia, um imobilismo, como se o povo russo tivesse parado, desanimado com a sua própria sorte e sem forças para empreender qualquer mudança. A situação é tão grotesca que, apesar do humor irônico, sarcástico, utilizado pelo escritor, o poeta Pushkin que tinha dado a ideia central do romance a Gógol ter dito, depois de ter lido o livro: “eu não ri, chorei; Deus, como é triste a nossa Rússia”.

         Logo no inicio da segunda parte, justificando falar da pobreza, novamente o narrador diz: “Mas que fazer, se é esse o feitio do autor, que, doente da sua própria imperfeição, já não consegue pintar mais nada além da pobreza e outra vez a pobreza, e a imperfeição da nossa vida, desenterrando personagens de perdidos cafundós?” Esse narrador que conversa o tempo todo com o leitor, explica, dá bronca, pede desculpas, lembra muito o narrador das crônicas de Machado de Assis e que, em muitas situações, também aparece nos romances.

         Em vários momentos da história é esse mesmo narrador que chama a nossa atenção para o espírito do povo russo, da corrupção do funcionalismo público, da burocracia russa e também dos seus hábitos como uma bebida forte como a vodca, sempre presente nos encontros sociais.

       O narrador também relembra no livro a dificuldade do escritor realista em comparação com o escritor romântico, já que foi Gógol que iniciou com o realismo na literatura russa. Aquele era um momento de transição na literatura e ele diz que não vai ser o escritor realista que se atreveu a descortinar o que os olhos indiferentes não veem que receberá os aplausos. Induzindo que as pessoas sempre preferem o brilhante, o verniz do romantismo que enxerga tudo muito mais bonito do que na verdade o é.

         O objetivo de Nikolai Gógol era escrever o livro em três partes como a Divina Comédia de Dante. Ele concluiu a primeira parte e a segunda ficou incompleta porque ele queimou os manuscritos e nem tudo pode ser salvo. Então não estranhe quando perceber que faltam pedaços à segunda parte e que a mesma não termina. Por mais inusitado que isso possa parecer, não tira o mérito do livro e ainda permite que nós, leitores, desenhemos o final que mais nos agradar.

          Uma curiosidade é que Gógol nasceu na Ucrânia que fazia parte do Império Russo e tanto a Ucrânia como a Russia, atualmente, pleiteiam sua nacionalidade.

         Gógol, que também escreveu muitos contos e peças de teatro, deprimido por uma crise religiosa e dias depois de ter queimado seus manuscritos, deixou de comer e morreu por inanição aos 41 anos.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=EY4HjxgdZTA

               

FICHA TÉCNICA

Título Original – Miórtvie Dúchi

Edição Original – 1842

Edição utilizada nessa resenha – 1979

Editora  Abril - São Paulo

Número de páginas – 446