ANGÚSTIA         

         

             O escritor alagoano Graciliano Ramos não é um autor de histórias felizes. Sua obra autobiográfica, Infância, nos permite perceber que o escritor não teve uma infância muito fácil. E essa desilusão com a vida vai aparecer em muitas de suas obras como no seu livro mais famoso Vidas Secas e também em Angústia. Claro que em ambos os livros há uma forte crítica social, mas também essa tristeza que lhe é peculiar. Não podemos esquecer que o escritor é um autor realista, assim, suas obras não vão ter o verniz cor-de-rosa do romantismo.

          Angústia foi lançado, em 1936, quando Graciliano ficou preso por quase um ano. O crime? Pensar diferente. O que não era permitido, já que o país estava em plena ditadura de Getúlio Vargas. O livro não foi escrito na prisão, como muitos pensam, mas foi publicado, mesmo contra a vontade de Graciliano, quando ele ainda estava preso. Em carta ao crítico Antonio Cândido, Graciliano contou que, por estar preso, não conseguiu acompanhar a edição e fazer as revisões que queria.

         Era um contexto difícil. O mundo vinha da recessão de 1929. O Brasil estava ainda mais empobrecido sem as exportações do café e havia a perseguição política ao pensamento de esquerda.

           Angústia é uma narrativa introspectiva. O que significa isso? Que o tempo todo, o personagem principal, o funcionário público Luiz da Silva, vai estar olhando para dentro de si mesmo, para sua própria angústia que o acompanha. Desta forma, só poderia ser uma escrita em primeira pessoa. Nós, leitores, só vamos conhecer a história pelo olhar, pelo que pensa e vê o personagem-narrador.

         O protagonista e também narrador, Luiz da Silva, tem 35 anos, vem de uma família ruralista decadente e não tem muitas perspectivas na vida. Solitário, mora mal, come mal, vive mal. Como Graciliano, o personagem saiu do meio rural e foi morar em Maceió, capital da Alagoas. E o escritor vai usar esses dois cenários, o rural e o urbano, para compor a história. Da mesma maneira que também vai usar a temporalidade, as lembranças passadas no rural e a vivência urbana do presente. Desta forma, o tempo todo, rural e urbano, passado e o presente se mesclam. Luiz da Silva parece um personagem que não consegue se ambientar em nenhum lugar.

         Quando o livro começa, ele diz que está se levantando depois de 30 dias acamado e que ainda não se sente bem. Nesse início, ele já vai citar dois outros personagens muito importantes na trama: Marina, a vizinha, fútil e pobre como ele, por quem vai se apaixonar, e Julião Tavares, um conhecido seu, filho de um comerciante que está, economicamente, muito bem na vida e com quem Marina vai lhe trair. A partir daí, a história vai se desenvolver e, justamente por citar esses dois personagens logo no início, significa que ele vai relembrar como tudo aconteceu, mesmo que em nenhum momento isso seja dito de forma explícita.

          Luiz da Silva é um escritor frustrado, que não consegue sequer entregar para o jornal uns artigos que faz de bico, junto com seu trabalho na repartição pública. Tem dívidas e não consegue pagar o aluguel para o Dr. Gouveia, o proprietário, mesmo que sua casa seja bastante deteriorada e habitada por ratos que lhe infernizam a vida. Entretanto, chama a atenção que, em meio à pobreza, ele ainda tenha uma empregada, que esconde suas moedas no jardim. 

       Com o tempo ele consegue organizar um pouco sua vida, paga suas dívidas e começa até a guardar um pouco de dinheiro. Luiz da Silva segue nessa vidinha bem medíocre quando se muda para o lado de sua casa, a família de Marina. Como os muros são baixos, Luiz passa a observar a garota quando ela está no quintal. Eles acabam se conhecendo, namorando e resolvem se casar. Luiz lhe dá todas as suas economias para que ela possa fazer o enxoval. Entretanto, Marina conhece Julião Tavares e logo se interessa por ele, por ele ter muito mais posses do que Luiz da Silva e troca um pelo outro.

         Obcecado pelo ciúme, Luiz da Silva passa a só pensar nos dois, o dia inteiro. Nesse ponto da história, a angústia de Luiz cresce tanto que ele passa a seguir, ora Marina, ora Julião.

         Por outro lado, Julião agrada os pais de Marina e a própria com muitos presentes, mas, em nenhum momento, pensa em se casar com ela. E, assim que descobre que ela ficou grávida dele, ele a abandona. Luiz da Silva fica sabendo sobre a gravidez ouvindo a conversa de Marina e sua mãe. Um dia, segue Marina e descobre que ela está indo em uma mulher para fazer aborto.

        Cada vez mais desesperado, Luiz da Silva segue Julião uma noite e o mata estrangulado. Depois vai para casa e tenta dar fim a suas roupas e tudo que possa incriminá-lo. Cai de cama doente, delirando, depressivo e são os seus delírios que encerram a história.

        É uma escrita que entremeia, como já dito, o urbano e o rural, o presente e o passado, mas também a realidade e o delírio, o que nos deixa na dúvida se realmente Luiz matou Julião. Creio que essa foi a intenção do escritor, nos deixar em dúvida, principalmente, porque o próprio Luiz da Silva em um trecho se questiona:

 "Sentia um medo horrível e ao mesmo tempo desejava que um grito me anunciasse qualquer acontecimento extraordinário. Aquele silêncio, aqueles rumores comuns, espantavam-me. Seria tudo ilusão? Findei a tarefa, ergui-me, desci os degraus e fui espalhar no quintal os fios da gravata. Seria tudo ilusão?..

          De qualquer forma, se aconteceu ou não o assassinato, é impossível saber, mas uma coisa é certa, se realmente ele matou Julião, isso não aliviou sua angústia. Luiz da Silva retorna à sua vida medíocre como se nada tivesse acontecido.

           A introspecção é uma forte marca do romance, o desencanto do personagem que também pode ser o desencanto com o momento em que o país estava atravessando. Há então, uma perspectiva psicológica, que é representada pela viagem em si mesmo do personagem, ao lado de uma perspectiva sociológica, que é a dificuldade de sobreviver que os mais pobres encontram, e que contrasta quando comparada com os mais ricos, como o personagem Julião.

         

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=WOq6sTLMb58

FICHA TÉCNICA

Título Original – Angústia

Edição Original – 1936

Edição utilizada nessa resenha: 1955

Editora: José Olympio - Rio de Janeiro

Páginas: 251