ATÉ A PRÓXIMA

          Sempre que o verão ameaça ir embora, sinto uma certa nostalgia. Como um amigo grande e sorridente que parte, gostaria de pedir que não se fosse. Fico com saudade, antes mesmo de sua partida.

        Tenho certeza de que é pra não me deixar triste, que ele sai de mansinho. Um dia vem forte bater à minha janela, mas no outro, me impõe sua ausência. Vai deixando que eu me acostume com os dias mais amenos, permitindo que o senhor outono, com sua capa laranja, vá ocupando espaço, como que me preparando para a despedida.

            As pessoas ficam felizes. Querem mesmo que o verão vá embora de vez. Todo ano é a mesma coisa. Ficam perguntando por ele quando ele demora, mas rezam para que se vá logo, ao final da estação, como se tivessem tido uma overdose do seu calor. E quase fazem promessa para que as folhas caiam por toda parte, o mais rápido possível.

           Entretanto, eu não sou essas pessoas. Eu penso na praia, no sorvete, nos vestidos leves, no pé descalço e quero agarrá-lo para que não se vá. O verão não aquece apenas meus dias. Ele borbulha muitas coisas em meu coração.

         Não quero permitir que tudo isso se arrefeça, mas não tenho escolha. Meu amigo tem uma bagagem a carregar para o outro lado do mundo, onde o esperam. Tenho um pouco de ciúme desses outros amigos que eu não conheço direito, só ouvi falar. Mas ele ri do meu ciúme. Acha que sou dessas mulheres ciumentas, prontas a fazer uma cena. Não faço cena nenhuma. Só escrevo crônicas.

         Tento convencê-lo com uma fala mansa. Chamo-o carinhosamente de grande Rá, Guaraci e até mesmo Apolo, o que ele acha um exagero. Não pode ser um guerreiro. Seus raios não querem ferir ninguém. Existem para aquecer o mundo, permitir que as plantas cresçam e que o frio não tome conta de tudo. Eu sei.

          Ele me abraça forte. Não falamos nada, mas sinto que é a última vez. É o abraço da despedida. Fecho os olhos e tento aproveitar ao máximo esse último carinho. As nuvens vêm chegando para levar meu Sol embora. Elas o encobrem e ele sobe em seu transporte branco. Ele me acena já de longe. Eu assisto a tudo e penso que sempre teremos Paris.

São Paulo, 20 de março de 2022