ATÉ NO CÉU

       Cheguei cedo ao meu posto na nuvem 3. Dizem que o Chefe é bonzinho, mas já conheci sua ira. Não titubeio. Se o Homem mandou, eu faço. Prefiro chegar antes a chegar atrasado.

          Minha missão: entrevistar os novos moradores. Ainda bem que desde que o Steve subiu, pude aposentar meu gravadorzinho e agora uso um moderníssimo Inuvem que grava para a posteridade.  Aliás, o Steve foi uma ótima aquisição. O pessoal de baixo bem que o queria por lá, mas, depois das contas feitas, o balanço mostrou que ele nos pertencia.

         As entrevistas começaram bem. O pessoal das nuvens 1 e 2 é muito competente. O volume tem sido imenso, mas mesmo assim eles não deixam a qualidade do serviço cair. Quando chegam à nuvem 3, os novos moradores já estão mais ambientados e entendem que a vida mudou. Sentem saudade da vida terrena, mas só de saber que não acabou, têm um alento.

        Na entrevista tento obter o maior número de informações possível e também encaminhar suas escolhas. Nem sempre é o óbvio. Tem gente que prefere um amigo a um filho ingrato. Outros, pelo menos aqui em cima, decidem que querem conviver com o ex-marido, já tem gente que prefere um amante. O que não há problema, desde que seja uma escolha de ambos os lados. Os grupos são grandes, porém sempre se acertam. Como ainda é cedo, as mágoas ainda existem. Depois de alguns meses, não há mais qualquer rusga. É impressionante como grandes problemas antigos viram nada por aqui.

          Tudo estava indo bem e eu já estava achando que iria acabar antes do previsto quando chegou a vez dela.

          - Profissão?

          - Cronista.

          - Já sabe com quem quer ficar aqui em cima e o que deseja fazer?

         Um silêncio total. Achei que talvez ela não tivesse entendido. Repeti a pergunta. Talvez fosse surda. Nada. Ela estava pensando ou estava emburrada? Cronistas são sempre difíceis. Lembrei que na nuvem 7, ela teria a companhia do Carlos e do Rubem, mas nem assim ela esboçou qualquer reação. Paciência é algo divino, diz o Chefe. Respirei fundo.

          - E o meu computador?

        Claro que não haveria computador. Só o do chefe que o Steve está aperfeiçoando. Cronistas. Antigamente queriam uma pena, depois uma máquina de escrever e agora exigem um computador. Expliquei que não adiantava escrever porque ninguém iria ler. Todo mundo já sabe tudo por aqui. Pra que crônica? Ela me olhou estupefata e disse que queria voltar. Expliquei que era impossível. Ela bateu o pé. A fila crescendo. Todo mundo reclamando. A ordem celestial virando um pandemônio. O chefe chegou. Quis saber o que estava acontecendo. Eu relatei. Ele disse a ela que a vida no céu era diferente. Não precisava mais escrever. Ela não quis saber. Afinal, foi Ele que a fez escrevendo, como não queria mais que ela escrevesse? Silêncio total. Todos na fila esperando a reação do Chefe.

          Do nada surgiu um computador. Ela sorriu satisfeita.

          - E em qual nuvem fica o jornal? - ela quis saber.

        O chefe olhou para ela, completamente surpreso. Só faltava essa. Uma Folha do Céu. Enquanto Ele respirava fundo, só conseguia pensar que o mundo não precisa de mais cronistas.

         São Paulo, 04/05/2021