MAYOMBE

 

 

 

          Mayombe é o nome de uma grande e densa floresta tropical na África que se estende pelo Gabão, pela República Democrática do Conto, pelo Congo e por Angola e é o palco do romance do escritor angolano Pepetela. Na verdade, Pepetela é o pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos. O livro foi escrito no início dos anos 70, durante o período em que o próprio Pepetela era guerrilheiro do Movimento Popular de Libertação de Angola(MPLA). Hoje, o MPLA é um partido político que dirige Angola desde a independência de Portugal, em 1975.

          Angola foi colônia portuguesa durante anos, mas desde 1961 seu povo começou a lutar pela independência. Entretanto, além de lutar contra o português, que eles chamavam de Tuga, uma abreviação de portuga, também era necessário fazer a difícil união das diversas tribos que compunham o território de Angola. Cada tribo tinha suas crenças e valores e também suas desavenças com as demais.

          A floresta de Mayombe fica em uma província bem ao norte, chamada Cabinda, e que, apesar de fazer parte de Angola, está separada do resto do país pelo Congo, o que tornava o trabalho do MPLA ainda mais difícil.

        Apesar do livro ser narrado em terceira pessoa pelo narrador onisciente, aquele que tudo vê e tudo sabe, de vez em quando, Pepetela dá voz ao seus personagens que assumem explicitamente a figura do narrador e falam de um fato ou de alguém em primeira pessoa. Isso é muito rico, pois dá ao leitor diversas visões do que está acontecendo.

          Na dedicatória, Pepetela oferece o livro aos guerrilheiros do Mayombe e diz que vai contar a história de Ogun, o Prometeu africano. Nesse momento, imagina-se que ele vá contar a história do deus Ogun, mas, no decorrer do livro, é possível perceber que Ogun é um herói e que o Comandante, conhecido pelo apelido de Sem Medo, era o Ogun, o mais forte e mais politizado do grupo e justamente, vai caber a ele a maior parte das reflexões sobre a luta e o partido. Sem Medo, juntamente com seus homens, vai desafiar o Mayombe, da mesma forma que desafiou Zeus, o todo poderoso Deus e, claro, também os portugueses dominadores.

           Há uma passagem em que isso é facilmente verificável:

E os homens tornaram-se verdes, e dos seus braços folhas brotaram, e flores, e a mata curvou-se em abóbada, e a mata estendeu-lhes a sombra protetora, e os frutos. Zeus ajoelhado diante de Prometeu. E os homens compreendiam que Zeus, afinal, não era invencível, que Zeus se vergava à coragem(...) Tal é o atributo do herói, o de levar homens a desafiarem os deuses. Assim é Ogun, o Prometeu africano.

          Os homens recebem nomes de guerra. Assim, da mesma forma que o comandante é o Sem Medo, há o professor chamado de Teoria, guerrilheiros chamados de Verdade, Lutamos, Mundo Novo e assim por diante. Claro que esses nomes dos personagens não foram escolhidos à toa. Tem a ver com a personalidade de cada um e com o seu lugar na trama.

           Os personagens principais da história são o comandante Sem Medo e o comissário político que é seu braço direito. Sem Medo é muito mais experiente do que o Comissário e, por isso mesmo, tem por esse um carinho especial, como se fosse seu filho.

          Apesar de ser um livro que também tem ação, há espaço para muitas divagações. Os guerrilheiros ficam isolados na floresta do Mayombe, em condições precárias e muitas vezes sem comida. A guerrilha está em um momento de relativa calma, mas, mesmo assim, os homens não podem largar seus postos, estão presos na floresta, o que os faz refletir muito sobre a sua vida, sobre a guerrilha e a condição das tribos e de seu país.

          Há muitos momentos em que a reflexão leva ao ofício do escritor. Sem Medo diz: Se não houvesse revolução, com certeza acabaria como escritor, que é outra maneira de se ser solitário.

          Da mesma forma que os guerrilheiros são retratados como idealistas, há na vila mais próxima, um personagem de nome André que seria o responsável por atender as necessidades da Base no Mayombe, mas, como em qualquer movimento, André se corrompe, não manda alimentos para os guerrilheiros e ainda tem relações com a jovem Ondina, noiva do Comissário, e que também faz parte do Movimento. Por mais estranho que pareça, apesar de sua incompetência, ele só é removido por causa do escândalo que foi manter relações sexuais com Ondina, o que mostra como os partidos, mesmo aqueles que ainda não chegaram ao poder, têm pessoas que desvirtuam a ideologia em benefício próprio.

          André então é transferido e enquanto não é colocado alguém em seu lugar, Sem Medo vai para o vilarejo, onde também se envolve com Ondina, mas sem culpa, pois ela não era mais a noiva do Comissário. Durante sua estada ali, o comandante Sem Medo é procurado por um mecânico que deseja se juntar ao movimento. O interessante é que esse mecânico é natural de Cabinda, o que demonstra que a população local que antes não ajudava ao movimento, estava começando a entendê-lo.

          Ao final do livro, o Comandante volta para o Mayombe para sua última missão antes de ser transferido para outro ponto da Guerrilha. Como o Comissário foi escolhido para ficar em seu lugar, ele comandará a missão como um treino sob a supervisão do comandante. Os guerrilheiros então, atacam uma base portuguesa. Entretanto, precipitadamente, o Comissário se expõe à frente dos outros. Sem Medo, para protegê-lo, também se expõe e acaba sendo ferido. Antes de morrer, Sem Medo vê, em uma árvore, o rosto do jovem mecânico que havia lhe procurado para entrar no movimento. Ele percebe que os moradores locais estavam entendendo que a luta era de todos e que estava nascendo um novo homem, acima da divisão de tribos, e que seria esse novo homem a libertar Angola

          Quando Sem Medo morre, ele é enterrado no Mayombe, o que, simbolicamente, representa que homem e terra se uniram.

Vídeo-resenha:

FICHA TÉCNICA

Título Original – Mayombe

Edição Original – 1980

Edição utilizada nessa resenha – 2013

Editora Leya – Rio de Janeiro

Número de páginas – 252