CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO

          O livro Coração, Cabeça e Estômago do escritor português Camilo Castelo Branco começa com uma novidade. Silvestre da Silva, o personagem narrador e escritor da história, morreu e deixou seus escritos para um amigo publicar. Silvestre acreditava que seu livro seria um sucesso e com o dinheiro da venda do livro poderia quitar as dívidas com seus credores que ele deixou ao morrer. Esse amigo, que não tem nome, pode ser então o próprio Camilo Castelo Branco que passa a ser, ao mesmo tempo, autor do livro e personagem da história. A importância desta obra está justamente em ser original para a época, publicada no século XIX, como com a utilização da figura da metalinguagem, descrita acima, ou seja, a história do livro dentro do livro.

          Dividido em três partes: coração, cabeça e estômago mostra como as etapas da vida se sucedem. Quando somos jovens somos mais coração. As emoções é que nos dominam. Na fase adulta, quando somos obrigados a escolher uma carreira, um futuro, somos então governados pelo intelecto que ditará, inclusive, as nossas ambições. Já a última fase que corresponderia à terceira idade, é aquela que já não temos tantos desafios. É uma fase mais acomodada, de gozar os prazeres da vida, em que normalmente o ser humano engorda e, por isso, ela foi chamada de Estômago pelo autor.

          Na fase Coração, a mais longa do livro, Silvestre jovem vai se apaixonar por sete mulheres diferentes. São amores ingênuos, próprios do século XIX quando a história foi escrita. Com algumas dessas mulheres, Silvestre tem uma relação muito superficial e chega até a não conhecer o nome de uma delas. Em todos os casos, elas não se interessam por ele, ou já estão comprometidas com outro ou então, são mulheres que o enganam. De qualquer forma, ele terá sete desilusões amorosas.

         As mulheres são enumeradas por Silvestre da seguinte forma:

  1. Vizinha Leontina

  2. Vizinha que ele não sabia seu nome

  3. A quarentona Dona Catarina

  4. Clotilde, esposa do funcionário público

  5. Dona Martinha, dona do hotel

  6. A mulata brasileira Topinoioio

  7. Mademoiselle Elise de La Sallete

          Depois dessa sucessão de desilusões, Silvestre conhece, sentada no banco do cais, à noite, Marcolina, que lhe conta a sua triste história e de suas irmãs. Marcolina havia sido vendida pela mãe a um rico barão, porém, acabou se apaixonando por Augusto, o guarda-livros do Barão. Esse último, como quem havia imaginado que seria feliz, tinha deixado Marcolina na miséria depois dela ter se casado com ele, assim que o barão morreu. Além da atual pobreza, ainda estava tísica. Ao ouvir o triste relato, Silvestre fica com dó e a leva para morar com ele em Sintra, mesmo sendo essa ligação um escândalo para a sociedade da época, já que não eram casados e Marcolina não tinha boa reputação.

        Pouco depois, Marcolina morre e Silvestre percebe que a amou e que seu coração morreu com ela.

        Na segunda parte do livro, denominada Cabeça, Silvestre já está mais velho e não se deixa mais levar pelas conquistas amorosas. É a fase em que a carreira é a principal preocupação e que a razão, representada pela cabeça, deve dar as ordens ao invés do coração.  É quando ele começa a escrever artigos que obtém alguma repercussão. Decide-se então, mudar-se para a cidade do Porto, uma cidade maior, achando que lá, ele já devia ser conhecido, justamente por seus artigos. Logo percebe, com bastante decepção, que, na verdade, ninguém o conhece e os poucos que já leram algo de sua autoria, consideram seus artigos bem fracos. Sem desanimar, ele se alista na maçonaria, cria uma gazeta e tem ambição de ser ministro da Coroa. Nada disso dá certo. Seu jornal é fechado com um monte de dívidas, o que o faz repensar seus planos. Chega de se preocupar com a sociedade. Silvestre agora deseja apenas se casar com uma mulher rica e obter estabilidade financeira.

       Silvestre pesquisa quais são as três mulheres mais ricas do Porto e tenta conquistá-las. Mariana, uma dessas mulheres, é a jovem pupila de um casal de brasileiros. Silvestre não obtém sucesso com nenhuma das três e ainda descobre que um certo Dr. Anselmo Sanches pretende se casar com Mariana ao mesmo tempo que é amante da brasileira Rita, que é casada e tem a guarda da menina. Enraivecido, Silvestre então escreve um artigo contra o Dr. Anselmo, imaginando que a sociedade do Porto ficaria ao seu lado. Ledo engano. Todos acham que é uma calúnia e o Dr. Anselmo entra com uma ação contra Silvestre. Ele foi então julgado e condenado a pagar uma multa enorme, o que o levou a encerrar sua vida como intelectual.

          Um dos pontos que esse livro ressalta são as alusões feitas às mulheres brasileiras. Uma de suas paixões foi a mulata brasileira Tapinoioio e ao se referir a ela, Silvestre diz “que inferno de devorante lascívia ela tinha nos olhos.” Essa imagem da mulher brasileira ligada à lascívia, ligada à sensualidade, vai se repetir em vários romances e nessa história não apenas ao se referir à mulata, mas também à brasileira Rita que será amante de Dr. Anselmo. De novo, o autor coloca a mulher brasileira ligada à sensualidade ao trair o marido e ter um amante.

         Já na terceira e última parte, a fase da acomodação denominada Estômago, Silvestre havia voltado à sua cidade e completamente sem querer, inicia uma vida política e tem uma relativa melhora financeira. É nesse momento que ele conhece Tomazia, filha do sargento-mor, e se interessa pela moça que já tem vinte e seis anos. O sargento-mor, percebendo o interesse, oferece a Silvestre, sua filha em casamento e ele aceita.

         Ele então se casa, se acomoda e engorda, morando na casa do sogro e sendo muito bem cuidado pela esposa. É a felicidade calma do fim da vida que determina o fim da história.

        Entremeada na narrativa, há várias notas desse pretenso editor, como há também vários poemas de Silvestre que o editor, personagem que herdou os escritos de Sivestre, diz que não tem qualquer valor literário. Há então duas vozes ao longo da história, dois narradores diferentes, o que torna o livro bastante original para a época.

         Outra característica é que mesmo estando o livro inserido no período romântico, o autor, através de Silvestre, faz críticas ao romantismo, principalmente à heroína das histórias românticas que são sempre pálidas, frágeis, aparentando serem muito doentes. Diz ele que nessas histórias a heroína nunca come e nunca sabemos como ela cuida da saúde e que, nesse sentido, o romantismo presta um desserviço.

        Por fim, o livro, utilizando-se de ironia, faz várias críticas à sociedade da época, seus hábitos e costumes.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=Xfy2q3T-7e8

FICHA TÉCNICA

Título Original – Coração, Cabeça e Estômago

Edição Original –  1862

Edição utilizada nessa resenha – 2018

Ateliê Editorial – Cotia, São Paulo

Número de Páginas – 320