CHUVA DE VERÃO

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          De repente, não mais do que de repente, o lindo céu azul torna-se cinza, sombrio e desaba impunemente.

           De rasteirinha, sem guarda-chuva, sou pega desprevenida.

         Quem quer afundar os pés em uma poça d’água? Muito divertido aos dez, completamente sem graça aos sessenta.

     Procuro um abrigo, mas o muro comprido do colégio foi feito justamente para ninguém pensar em nele se abrigar. Compreendo perfeitamente. Também já fui diretora de escola. Tenho um pouco de vergonha de ficar no toldo da entrada, na rua lateral, e sigo em frente. Na chuva.

         A roupa ensopada gruda no corpo. O cabelo escorre. Nunca vou saber o que acontece com os táxis nos dias de chuva. Provavelmente, se escondem em algum buraco negro, bem sequinho. Preciso de uma pequena cobertura, para, pelo menos, chamar um carro de aplicativo. Não há cobertura alguma. Só portões desabrigados como eu.

          Os outros carros, que não são táxis, passam brincando de guerra de bexiga d’água, sem bexiga. Quero gritar que não gosto da brincadeira, mas é inútil.

          Molhada, desanimada, com raiva, vejo, quase na esquina, um café. Normalmente, adoro cafés, mas aquele, especialmente, me pareceu maravilhoso. Um oásis no meio do deserto. Um copo de água na caatinga. Enfim... você entendeu o que eu quis dizer.

        Entro como um dilúvio. O dono do café olha para mim, naquele estado, molhando tudo à minha volta e dá um sorriso triste. Penso que tenho de consumir muito para compensar tal aborrecimento. Só depois, tenho o direito de pensar em ir embora.

          Sou a única freguesa e para não dar mais trabalho, sento no balcão. Ele me oferece um cardápio de cafés especiais, mineiros como ele. Conto que sou filha de mineira. Ele já me olha com alguma simpatia. Experimento um, outro, mais um. Peço alguns pães de queijo que me lembram minha mãe. Conversamos sobre biscoito de polvilho, gado zebu, política café com leite. Mineirices. Enquanto falamos e a roupa seca, a torta de alho porró me conquista e o bolo de nozes com cobertura de creme, com certeza, quer me levar para o altar.

          E a chuva? Passou!! Como toda chuva!

 

São Paulo, 08/02/2022