CLARO ENIGMA​

       Para se entender um livro de um escritor importante como Carlos Drummond de Andrade, é preciso estudá-lo dentro do contexto da obra do escritor. Drummond, que nasceu em 1902, em 1951, quando Claro Enigma é lançado, já tem 49 anos e já está em uma fase mais madura como homem e como poeta, além de já ter sofrido alguns desencantos. Então, é normal que a sua obra também sofra a influência da fase que o escritor está vivendo.

          É um momento após segunda guerra em que o mundo ficou dividido entre o capitalismo e o comunismo e, por isso mesmo, muito polarizado, sem espaço para se pensar outras formas de regime que fossem mais apropriadas, mais humanas. Entretanto, não é apenas por isso que vamos encontrar um Drummond desencantado, mais melancólico. Em O Observador no Escritório, que é o diário do escritor, é o próprio Drummond que explica a dedicatória que ele fez ao poeta Américo Facó e que nos ajuda a entender em que estado Drummond estava quando escreveu Claro Enigma:

"Na casa da Rua Rumânia, durante três noites, confiei-lhe os originais do meu livro Claro Enigma e ouvi suas opiniões de exímio versificador. Eu “convalescia” de amarga experiência política, e desejava que meus versos se mantivessem o mais possível distantes de qualquer ressentimento ou temor de desagradar os passionais da “poesia social”.

          Qual era essa “amarga experiência política”? Drummond havia trabalhado na campanha política do também mineiro Cristiano Machado, candidato do PSD, Partido Social Democrático à presidência. Ele e Cyro dos Anjos eram encarregados de escrever discursos para o candidato. E o seu candidato, Cristiano Machado, perdeu de forma esmagadora para Getúlio Vargas.

          Na epígrafe, em francês, les evenements m'ennuient de Paul Valery que quer dizer, os eventos me aborrecem, o escritor, praticamente, já prepara o leitor para esse seu estado de espírito. Há uma melancolia, uma perda do ideal revolucionário.

          O livro foi dedicado ao também poeta Américo Facó, porque este havia lido e analisado os originais. Ao pedir para que Facó examinasse os originais de Claro Enigma, Drummond entendia que Facó era um poeta isento em relação às modas ou às tendências da época e já dizia que ele era um exímio versificador, já que Claro Enigma fazia um retorno à tradição de versos com rigor formal. Era uma experimentação que Drummond estava fazendo, um livro em que ele vai testar muitas formas diferentes de escrita.

          Drummond foi um admirador da geração de 22 que lançou o modernismo no Brasil e ele próprio também se tornou um modernista da segunda geração. E o que pregavam os modernistas? Versos livres, rimas livres, linguagem mais coloquial. Desta forma, os primeiros livros de Drummond seguiram a estética modernista, livros importantes como Sentimento do Mundo e a Rosa do Povo. Esses livros eram também de uma fase em que Drummond estava bastante preocupado em se tornar um ser político, então seus versos vão ser versos voltados para o social e para os problemas da coletividade.

          Em Claro Enigma tudo isso se altera e por isso é um livro tão importante na trajetória do escritor, é um livro de ruptura. O poeta, antes tão preocupado com o social, desaparece e surge um poeta extremamente reflexivo preocupado muito mais com seu interior. E a forma de sua escrita também se altera. É um momento que o Drummond experimenta formas mais clássicas como o soneto que é constituído de 14 versos, duas estrofes de 4 versos e duas estrofes de 3 versos. Com Claro Enigma, o poeta resgata o verso clássico, a poesia formal, as rimas e um rigor literário muito maior do que estava acostumado.

        É o livro de Drummond mais minuciosamente construído, e que dá início a uma preocupação com a metrificação que vai aparecer também em Fazendeiro do Ar e em A vida passada a limpo, que seriam seus livros futuros. Apesar do formalismo que caracteriza esses livros, isso não quer dizer que o verso livre tenha sido enterrado. Várias formas de escrita vão conviver, a partir de então, na obra do poeta.

         Em Novos Poemas, que é o livro anterior a Claro Enigma, lançado três anos antes, o último texto desse livro chama-se, justamente, O Enigma e nele, Drummond diz que pedras caminhavam quando surgiu uma coisa que as paralisou e elas ficaram paradas para sempre e que essa coisa sombria que as paralisou constitui-se em um enigma. E o poeta completa: o enigma tende a paralisar o mundo. Já havia então, anteriormente, a figura do enigma presente na obra do escritor e, provavelmente, a vontade de melhor trabalhar essa figura.

         Quando se pensa em um enigma, imediatamente nos vem à cabeça um dilema a ser resolvido. Um enigma é algo que a resposta não está exposta, ela é obscura, precisa ser descoberta. Mas, se esse enigma for claro, já é uma contradição. A obscuridade e a clareza são coisas paradoxais. E aí já começa um jogo de esconde e mostra de Drummond.

          Claro Enigma é um livro com 41 poemas, que o autor já entrega ao leitor  dividido em seis partes, cuidadosamente pensadas. Elas não são partes estanques. Elas conversam uma com a outra e dão unidade ao livro. Há um caminho traçado a ser percorrido. A primeira parte Entre Lobo e Cão é constituída de poemas escuros, que lembram as trevas, as noites. Essa escuridão vai perdendo força, à medida que o livro vai caminhando. No final, há a volta da cor e da luz, justamente, no último poema, chamado Relógio do Rosário. Então, percebe-se aí uma das características do livro que é essa construção requintada com uma meta definida, da escuridão à luz, do enigma à claridade.

          Há também em Claro Enigma a presença fortemente marcada da intertextualidade, ou seja, o texto do Drummond vai conversar com o texto de outros autores como Camões, Dante e Sá Miranda.

AS PARTES

I - Entre Lobo e Cão

Entre Lobo e Cão é uma referência a um verso do poeta português Sá Miranda, que quer dizer que no claro dia você está na escuridão. Logo nos primeiros versos do primeiro poema Dissolução, Drummond diz:

Escurece, e não me seduz

Tatear sequer uma lâmpada.

Pois que aprouve ao dia findar,

Aceito a noite.

Há uma clara aceitação do período sombrio e o poeta não quer sequer procurar uma lâmpada. No poema seguinte, chamado Remissão, de novo há um desânimo, um enfraquecimento.

A primeira parte de Claro Enigma também é a dúvida entre ser o animal feroz, audaz, independente como o lobo, ou cordial, amigo e submisso como o cão. Todos os poemas falam de tristeza, melancolia, até que o próprio poeta diz em Cantiga de Enganar:

O mundo não vale o mundo, meu bem.

II. Notícias Amorosas

Aa segunda parte, Noticias Amorosas, traz poemas que têm o amor como tema. Mas não é um amor alegre, é um amor triste. Nos últimos versos do poema Campo de Flores, que encerra essa parte, o poeta diz “Há que amar e calar. Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde.”

Entretanto, é preciso ressaltar que já não é mais uma completa treva, e, sim,  uma luz baixa.

III - O Menino e os Homens

Os quatro poemas da terceira parte: O Menino e os Homens, é o poeta homenageando homens que de alguma forma ele admirava. Em O Chamado ele fala de Pasárgada, uma homenagem a Manuel Bandeira. Em Aniversário, ele faz uma homenagem aos cinco anos da morte de Mario de Andrade. Em Quintana’s Bar, ao poeta Mario Quintana.  Somente no primeiro poema, A um Varão que Acaba de Nascer, não fica claro a quem o poeta está homenageando. Talvez, ao nomeá-lo Pedro, esteja fazendo uma homenagem a todos os homens, já que é famosa a alusão a Pedro como pescador de homens. Essa terceira parte termina como poeta dizendo:

 –“vida é paixão – contigo rimos, expectantes, em frente à porta.

Mais uma vez, a caminhada continua, das trevas, vem uma luz baixa e agora, uma expectativa.

IV. Selo de Minas

Já a quarta parte: Selo de Minas, como o próprio nome diz, são poemas que evocam Minas Gerais. Um vai falar de Ouro Preto, outro de Mariana, Vila Rica, Itabira, que foi onde Drummond nasceu, e assim por diante. Nos últimos versos do poema Os Bens e o Sangue, a terra ao falar ao poeta diz que ela é o seu adubo. Ressaltando mais uma vez a influência que o seu estado de origem tem na obra do escritor.

 

V. Os Lábios Cerrados

A quinta e penúltima parte, que leva o nome de Os Lábios Cerrados, é a mais introspectiva e autobiográfica. Os lábios cerrados estão cerrados, lábios mudos, lábios que não falam. São poemas que falam de mortos, de ausentes, muitos já esquecidos, do pai do escritor e da sua família. No final do longo poema A Mesa, há novamente uma referência à cor e a luz. Diz o poeta: “... que branca mais que branca tarja de cabelos brancos retira a cor das laranjas, anula o pó do café, cassa o brilho aos serafins? Quem é toda luz e é branca?

 

VI. A Máquina do Mundo

            Por fim, a quinta e última parte chamada de A máquina do Mundo é composta apenas de dois poemas, o próprio A Máquina do Mundo, eleito o melhor poema brasileiro do século XX pelo jornal A Folha de São Paulo e uma clara referência aos Luzíadas de Camões, onde no canto X, Camões fala da Máquina do Mundo capaz de esclarecer todos os enigmas. Essa máquina se abre e oferece todos os esclarecimentos, mas o poeta desdenha dessa oferta. Entretanto, ao final, parece se arrepender porque avalia o que perdeu. Finalmente, o poema Relógio do Rosário, que encerra o livrofala da dor individual e do mundo, dor de tudo e de todos e termina, como eu disse antes, com a volta da cor.

Mas na dourada praça do Rosário,

Foi-se, no som, a sombra. O columbário

Já cinza se concentra, pó de tumbas,

Já se permite azul, risco de pombas.

            O columbário, que tanto pode ser um pombal como o lugar que guarda as cinzas dos mortos, se transforma de um local de cinzas para um local de pombas. Perde a cor cinza para se permitir o azul e, por fim, as pombas, brancas, símbolo da paz. É como se o escritor tivesse partido de um estado de espírito muito negro no início do livro e tivesse, finalmente, encontrado a paz.

         Vídeo-resenha: 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Claro Enigma

Edição Original: 1951

Edição utilizada nessa resenha: 1983 (Carlos Drummond de Andrade - Poesia e Prosa)
Editora: Nova Aguilar - Rio de Janeiro
Número de Páginas: 1536