DON JUAN(Narrado por ele mesmo)

          Em outro post, começamos a falar do escritor austríaco Peter Handke, que foi o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2019. Começamos falando de um livro da década de 70, que traz duas pequenas histórias: A Mulher Canhota e Breve Carta Para um Longo Adeus. 

          Agora nós vamos falar de um livro que eu, particularmente, gosto muito mais do que o anterior e mostra uma faceta diferente da obra de Handke. O livro chama-se Don Juan(Narrado por ele mesmo). Mesmo com esse subtítulo entre parênteses, para nossa surpresa, não é propriamente Don Juan quem narra o livro. O narrador é um hospedeiro francês, solitário, que vê seu albergue definhar, mas que, um belo dia, sem mais nem menos, recebe a visita de Don Juan em sua propriedade, aparentemente foragido, mas não sabemos bem do quê.

           Don Juan torna-se convidado do hospedeiro. E, como o albergue estava vazio, para retribuir a hospedagem, Don Juan, diariamente, conta ao albergueiro a história de sete aventuras com sete mulheres diferentes e que aconteceram em um prazo de apenas uma semana, ou seja, também sete dias.

         A epígrafe que Handke escolheu é um trecho da ópera Don Giovanni, escrita por Mozart em conjunto com Lorenzo da Ponte e que diz “Quem sou eu, não saberás”. Essa epígrafe já nos dá uma pista de que o personagem será um enigma. E mais: será que Don Juan, o personagem que surgiu lá no século XVII, é o mesmo que sai dos livros para contar as suas histórias?

          “Eu cozinhava e Don Juan narrava”. É assim que o hospedeiro ouvia as histórias que seu convidado ilustre lhe contava. E, para sua surpresa, a cada dia, Don Juan lhe trazia um tempero ou especiaria diferente, o que tornava as comidas, (ou será que eram as histórias?), cada dia mais interessantes.

          Don Juan estava em um local diferente do mundo em cada um dos sete dias, mas uma coisa comum a todas as histórias por ele contadas é que, ao se aproximar das mulheres e de viver com elas uma experiência sexual, Don Juan estava na verdade querendo ajudá-las, levando brilho às suas vidas que, na maioria das vezes, eram amargas ou apenas apagadas.

          Ele não entrava em pormenores sobre os aspectos sexuais, o quê, diz o albergueiro, também não lhe agradariam sabê-los, mas, principalmente, Don Juan contava como seu deu o encontro com essas mulheres e da urgência que elas tinham em amá-lo, mesmo que fosse apenas por um dia.

          É um livro sobre o tempo, a solidão, encontros e desencontros.

      Enquanto A Mulher Canhota é de 1972 e mostra uma narrativa muito mais experimental de Peter Handke, que parece ainda, naquela época, estar buscando suas marcas enquanto escritor, Don Juan é de 2004 e nos mostra um escritor muito mais maduro, preocupado, principalmente, em contar uma boa história, mais do que em inovar na forma. Porém, também nesse volume, consegue ser bastante original.

         Don Juan, apesar de ser um livro curto, é genial e mostra o porquê de se atribuir o Nobel a um escritor tão controverso por suas posições políticas quanto Handke. Vale muito a leitura e também a releitura. Don Juan é um livro de camadas que não se apreende tudo que o escritor quer nos passar em apenas uma vez.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=lqJzePvakEs

FICHA TÉCNICA

 

Título Original – Don Juan(erzählt von ibm selbst)

Edição Original – 2004

Edição utilizada nessa resenha:2007

Editora: Estação Liberdade

Páginas: 140