DORES

          Meu pai morreu em uma quinta-feira, um dia absolutamente corriqueiro. Morreu de repente. Sem avisar. Não estava em um hospital, um local tão dedicado à vida, mas tão preparado para a morte. Morreu em meio a uma reunião, em um prédio muito antigo, no centro velho de São Paulo. Sem estacionamento.

           Não havia cama, ficou no chão de um escritório sem nome. Ao seu lado, minha mãe ajoelhada, desesperada, e meu irmão olhando completamente fora do mundo. Em poucos segundos, entendi que cabia a mim resolver a morte.

         Médico para o atestado de óbito. Funerária. Tipos de caixão e um problema inesperado. O elevador do prédio era tão pequeno que não caberia ninguém para segurar o caixão. Não tem problema, pensei comigo. Ninguém vai roubar um caixão. Ao que o rapaz da funerária me explica que um caixão de pé, sozinho, o morto vai batendo e fica todo machucado. Era preciso preencher os espaços vazios.

           Desci os andares e entrei no antigo Mappin. Uma loja tipo magazine em que as pessoas iam às compras, felizes. Eu fui comprar travesseiros para o caixão de meu pai. A vendedora me indicava os que garantiam o melhor sono e eu escutava, entre absorta e incrédula.

              Sala de velório, coroa de flores, velas, café, avisar a todos, padre, e ainda ir atrás de alguém para um embalsamamento que aguardasse minha irmã chegar dos Estados Unidos. Comida e roupa para meu bebê e ainda conseguir alguém para ficar com ele, era a vida que seguia alheia.

            Só consegui sentar ao lado do corpo do meu pai, na madrugada. Fazia cinco graus em São Paulo. Ainda sinto o frio.

          A primeira lágrima correu tímida, com culpa, como se ela não pudesse estar ali. E então se seguiu mais uma e mais uma e muitas mais. Depois de quase vinte horas, eu consegui, finalmente, viver a minha dor.

            Quinhentas mil mortes são quantas dores? Um milhão, duas milhões? Não sei. Dores sem coroas, sem velas, sem abraços, sem ao menos um travesseiro. A dor e o tempo da dor escapando ao fluxo de vida e morte. A única coisa comum é que também essa dor ficará gravada no detalhe, no pequeno do momento que invade o grande e nos faz entender o para nunca mais.

            Não consigo deixar de pensar em Rosa: “Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer”

              São Paulo, 23/06/2021