ESCONDERIJOS

          Desde sempre tenho mania de guardar coisas em livros. Como são centenas e centenas de livros, sempre encontro alguma coisa, de vez em quando, que eu nem me lembrava mais de que existia.

      São cartões, fotos, guardanapos, flores secas, fitas, ingressos de cinema ou teatro, enfim, uma infinidade de pequenas coisas, algumas até bem estranhas, perdidas no mundo dos livros ou das recordações.

       Acho uma nota de um cruzeiro, moeda que não existe mais há décadas. Sorrio, tentando me lembrar por que razão eu guardaria uma cédula de valor tão baixo dentro de um livro. Não encontro nenhuma razão plausível. Na dúvida, torno a colocá-la dentro do livro. Pode ser que em um futuro muito, muito distante, ela valha alguma coisa.

        Em um guardanapo, encontro um poema. Não há assinatura nem data, mas a letra é minha, sem qualquer dúvida. Os versos são simples e a rima pobre. Tenho um pouco de vergonha de ter escrito algo tão ruim, mas como o livro é bem antigo, tento me consolar pensando que deve ter sido quando eu ainda era uma adolescente. Afinal, nem todo mundo pode ser Mozart.

         O rótulo da minha champanhe preferida e cara vem de uma noite especial, com certeza. Não lembro a noite e nem o motivo da comemoração, mas conheço muito bem meu pão-durismo e jamais gastaria dinheiro se não fosse um momento muito especial. Penso que a champanhe pode ter sido comprada por outra pessoa. Mas, nesse caso, eu me lembraria da pessoa, não é?

           Um cartão de natal de uma ex-aluna ainda mexe comigo. No cartão, ela agradece pelo ano e eu só consigo lembrar o quanto aquela turma e aquela aluna foram especiais na minha trajetória. Quem é professor sabe que nem todas as turmas são iguais. Algumas nos ensinam mais do que nós a elas.

          Recentemente, encontrei uma foto. Não me lembrava da foto e nem que ela tinha sido tirada. Mas recordei exatamente daquele momento. Da noite quente e estrelada. Do cenário perfeito. Da música que magicamente tocava e até da emoção que tomava conta de mim. É só uma foto, um pedaço de papel, mas, me transporta para quilômetros de distância, viagem de tempo, metros e mais metros de sentimentos esquecidos.

        Por fim, entendo o que sempre fiz, os esconderijos entre letras. Letras são sempre os melhores, seguros e surpreendentes lugares, que nos permitem ir e voltar, sem ter de pagar o preço da passagem.

São Paulo, 14/12/2021