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ESQUECER

         Sempre penso em tudo de que nos esquecemos desde a infância. Coisas, fatos e até pessoas que passaram por nós e não nos marcaram.

         Quem nunca teve aquela sensação esquisita quando se lembra de algo ou de alguém sobre a qual nunca mais se tinha pensado? Como se aquilo estivesse em um limbo que de repente, não mais do que de repente, tivesse resolvido vir à tona sem nenhuma razão aparente?

          Quanta gente simplesmente já se esqueceu de você ou de algo que você tenha feito? O esquecimento pode ser algo muito triste, mas também pode ser uma dádiva.

          Quando erramos, desejamos que nos esqueçam. Quando acertamos, queremos ser lembrados. Pena que a nossa simples vontade não mande no esquecimento. A memória tem vida própria e muitas vezes, consegue ser cruel.

          Era nisso que ele pensava quando desligou o telefone. Seu primeiro pensamento foi que não deveria nunca ter atendido aquele número desconhecido. Ou talvez devesse ter desligado quando aquela pessoa se identificou, mas ele não conseguiu situá-la no tempo da memória, a tempo para desligar. Demorou, ela precisou falar mais e ele precisou escutar mais.

          Foi quando ela tocou no assunto há tanto tempo soterrado que ele se lembrou. Lembrou-se de tudo. Doeu de tudo de novo.

          Ela, rapidamente, disse que não queria nada. Só contar que aquele antigo conhecido havia morrido. E que antes de morrer havia falado nele.

          Tinha quanto tempo? Mais de cinquenta anos, com certeza.

          Ele achou que tinha conseguido esquecer. Mas foi só aquela pessoa lhe dizer um nome que o esquecimento se foi e a memória da dor ganhou corpo e se instalou na alma novamente. Aos poucos, o quebra-cabeça foi sendo montado, peça a peça, dor a dor.

        Ele havia morrido sem que tivessem se falado nesses mais de cinquenta anos. Nunca houve um adeus, apenas a necessidade de esquecer, de se esquecerem.

       Ainda com o telefone na mão, ele percebeu que não teria mais cinquenta anos para esquecer novamente. Havia se lembrado e a lembrança caminharia com ele, não iria mais embora.

           Não era apenas a sua morte. Era a morte do esquecer.

SP 16/12/2025

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