HAMLET

          Hamlet, juntamente com Romeu e Julieta, são as peças mais encenadas do dramaturgo inglês, William Shakespeare. Claro que Shakespeare tem muitas outras peças famosas como Macbeth ou Otelo, mas Hamlet é mais importante e sobre ela foram escritos milhares de trabalhos acadêmicos e artigos de jornal. Ao longo dos séculos, centenas ou milhares de estudiosos tentaram e ainda tentam analisar cada pedacinho do texto. Alguns, inclusive, à luz da psicanálise.

            Como eu já disse em outras oportunidades, textos teatrais são sempre mais interessantes de serem assistidos do que lidos. Quando um escritor escreve para teatro, ele pensa no texto sendo encenado no palco e isso muda completamente a escrita. Por exemplo, em um texto dramatúrgico não há a figura do narrador. Não há a descrição detalhada do ambiente, porque não precisa. O público está vendo. Diferente do livro em que o autor tem de descrever bem o ambiente para que o leitor penetre na história. Da mesma forma, no teatro não sabemos o que o personagem pensa ou sente, a não ser que ele diga para outro personagem.

          Claro, que existem as rubricas, que são indicadores de como o autor quer que o texto seja encenado ou como o personagem deve se movimentar no palco, mas o diretor, normalmente, encena do seu jeito e pode, inclusive, desprezar as rubricas.

          Voltando a Hamlet, então, a leitura de um texto teatral, justamente porque não tem o narrador, ela é muito mais rápida porque só existe o discurso direto, ou seja, o diálogo entre os personagens. Assim, mesmo Hamlet sendo a peça mais longa de Shakespeare, que quando encenada na íntegra leva cerca de quatro horas, pode ser lida muito rapidamente.

          É um texto de domínio público, possível de ser baixado da internet, mas precisa ter um pouco de cuidado na versão que se escolher e buscar aquela que tem notas explicativas do tradutor.  E por que as notas são importantes? Porque é um texto de mais de quatrocentos anos e que tem muitas expressões que nós não compreendemos hoje. As notas nos ajudam nesse sentido. 

          Uma curiosidade é que há três versões diferentes de Hamlet que chegaram até os nossos dias. Elas têm pequenas diferenças entre elas. Mas isso é apenas mesmo uma curiosidade. Não há uma versão considerada muito melhor do que as outras.

          Vamos à história. Hamlet é o jovem príncipe da Dinamarca. A peça começa com o pai de Hamlet, também chamado Hamlet, morto há pouco mais de um mês. Após a morte do marido, a rainha havia se casado rapidamente com o cunhado Claudio, irmão de seu marido. O que era uma coisa completamente inusitada naquela época porque a relação com um cunhado na Dinamarca era considerada incestuosa. Assim, ao invés do jovem Hamlet se tornar rei, é Claudio que é coroado. Desta forma, Hamlet fica transtornado porque perdeu o pai, a coroa e, de uma certa forma, sua mãe o traiu casando-se com o tio e tão rapidamente.

          Na primeira cena, dois soldados estão fazendo a guarda do Castelo de Elsenor, onde Hamlet mora e trazem Horácio para que ele também veja o fantasma que tem aparecido para eles de madrugada. O fantasma é do rei Hamlet que havia acabado de morrer. Como Horácio é amigo do príncipe, na noite seguinte, ele o leva para que também veja o fantasma de seu pai. O fantasma faz então sinal para que o filho o acompanhe para que possam falar a sós e, nessa hora, o fantasma do rei conta a Hamlet que ele havia sido envenenado por Claudio, seu irmão, e pede que o filho vingue sua morte.

          Se Hamlet já estava transtornado antes, nesse momento, ele fica ainda mais perturbado ao saber que o pai havia sido morto pelo tio. E ele jura que vingará a morte de seu pai, matando seu tio. O problema é que Hamlet não tem essa personalidade vingativa, ou mesmo, a coragem necessária para matar Claudio. E esse é o grande dilema da peça. Como ter certeza de que o fantasma falou a verdade? Como executar a vingança? É essa angústia de Hamlet que nós vamos acompanhar.

          Ele elabora um plano de se fingir de louco para tentar descobrir a verdade, o que acaba confundindo o público se ele está ou não verdadeiramente louco. Claro, que isso é proposital e enriquece o drama.

         Mesmo sendo quase toda em verso e trazendo um vocabulário antigo é fácil de ler. Se você não entender o significado de alguma palavra ou expressão, não tem problema. Tem algumas expressões que nem os estudiosos entendem. O importante é o sentido geral da tragédia.

          Também é preciso entender o contexto em que foi escrita a peça. As grandes tragédias de Shakespeare como Hamlet, Otelo, Macbeth e outras foram escritas na fase sombria do escritor. Que fase sombria é essa? Ele estava já morando em Londres, quando seu amigo e protetor, o conde de Essex, foi executado por haver conspirado contra a rainha Elisabeth I. Então, esse ambiente de conspiração estava muito presente na mente e no coração de Shakespeare. Era natural que ele escrevesse sobre isso.

          Um recurso que Shakespeare usa em Hamlet e também em O Sonho de Uma Noite de Verão é fazer uma peça dentro da peça. Hamlet ou Shakespeare chega, inclusive, a indicar que o ator não exagere nem nos gestos e nem nas falas, pois o exagero foge ao propósito do teatro, nas palavras do Hamlet, que pede para que atores encenem a morte do seu pai, como o fantasma havia lhe contado, para ver se o Rei Claudio se trai. Tanto em Hamlet como em O Sonho de Uma Noite de Verão, Shakespeare acredita na força do teatro e na capacidade que o texto tem de fazer com que as pessoas se enxerguem nele.

          A peça Hamlet traz três frases repetidas à exaustão pelo mundo afora e que muita gente nem sabe que são originárias desse texto teatral. A primeira é :Há alguma coisa de podre no reino da Dinamarca, que se referia justamente à traição de Claudio e que nós usamos até hoje, principalmente na política, e até na vida.

       A segunda é; Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonhou jamais nossa filosofia e que alguns dizem ao invés de sonhou, supôs, mas o sentido é o mesmo. Hamlet diz essa frase devido ao estranhamento de ver um fantasma e que nós usamos toda vez que não entendemos bem como algo se dá.

          E por fim, a terceira e talvez mais importante: Ser ou não ser, eis a questão, que se referia justamente ao inferno pessoal de dúvidas que Hamlet enfrentava, ser ou não o autor de um assassinato para vingar seu pai e também a possibilidade de seu suicídio. De sermos capazes de tirar a própria vida e, de alguma forma, acabar com o sofrimento.

Assim, sem perceber, todos nós também tivemos um pouco a influência de uma obra tão relevante quanto Hamlet, que se imortalizou no tempo porque continua atual, trazendo questões que até hoje vigoram e que nos são importantes.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=h3QXIPwQwPk

               

FICHA TÉCNICA

Título Original – The Tragedie of Hamlet, Prince of Denmarke

Edição Original – 1599/1601

Edição utilizada nessa resenha – 1976

Editora  Abril - São Paulo

Número de páginas – 330