LOLITA

          As pessoas costumam ter uma relação de amor e ódio com esse romance, Lolita. Eu diria que minha relação é de respeito literário porque é muito bem escrito, mas também de um pouco de incompreensão pela escolha do tema pelo autor russo Vladimir Nabokov.

          Poucos livros causaram tanta polêmica quanto Lolita, quando foi lançado em 1955, mas  até hoje, continua indignando alguns leitores. Alguns o consideram pornográfico. Será? É importante abordarmos justamente todos esses aspectos polêmicos que fez com que Lolita se tornasse um dos romances mais discutidos de todos os tempos e um clássico do século XX.

          Primeiro, vamos situar quem é Nabokov. Ele não foi contemporâneo dos grandes escritores russos como Tolstói ou Dostoiévski. Nabokov vem bem depois. Ele nasce no final do século XIX e morre em 1977. Então, ele é um escritor do século XX.

          Nabokov era de uma família rica da nobreza e seu pai era advogado e jornalista. Sua infância e adolescência foram abastadas e muito tranquilas. Seus primeiros poemas foram escritos com apenas 16 anos. Mas, em 1917, quando houve a Revolução Russa e a nobreza foi cassada, sua família fugiu, primeiro para a Ucrânia, depois para Inglaterra, onde Nabokov estudou em Cambridge e depois, finalmente a família se estabeleceu em Berlim. Com a segunda guerra, novamente o escritor se mudou, dessa vez para os Estados Unidos.

          Ele foi durante toda sua vida um liberal. Era contra os czares russos, mas também contra o comunismo e o fascismo, ou seja, contra qualquer governo autoritário.

        Como toda família nobre russa, em casa eles falavam russo, inglês e francês. Seus primeiros romances foram em russo, mas Nabokov só se tornou conhecido mesmo, quando começou a escrever e publicar em inglês. Uma curiosidade é que Nabokov se interessava profundamente por zoologia e costumava coletar borboletas. Sua coleção tornou-se tão importante que foi, inclusive, doada para a universidade.

         Vamos ao livro? A grande maioria das pessoas conhece a história de Lolita, a paixão de um homem maduro por uma menina de doze anos. Na verdade, o personagem principal, o professor de Literatura, Humbert Humbert, não era só apaixonado, ele era completamente obcecado pela menina Dolores Haze, sua enteada, e que vai ser apelidada por ele, de Lolita.

          Humbert era francês e teve uma infância tranquila, mas sem a mãe que morreu cedo. Aos treze anos teve uma paixão por uma menina de sua idade que não chegou a se concretizar, mas que ele acredita que o marcou para toda a vida. A menina, inclusive, morre de tifo, no ano seguinte. E, à medida que vai crescendo, Humbert vai percebendo que ele tem uma atração muito grande por meninas de 9 a 14 anos, que ele chama de ninfetas.

          Humbert sofre colapsos nervosos e chega a ser internado em uma clínica para se tratar, o que já nos conta, que ele não tem um equilíbrio normal. Ao sair da clínica, ele recebe uma oferta para lecionar e morar nos Estados Unidos com uma família, e ele aceita unicamente porque a família tem uma filha de doze anos.

         Lá chegando, descobre que a casa dessa família havia pego fogo e, por isso, lhe é oferecido um quarto na casa de Charlotte Haze e que, imediatamente ele aceita, quando conhece a menina Dolores, filha de Charlotte.

         Há muitos aspectos polêmicos. Nabokov sabia que estava abordando um tema muito espinhento, que é a pedofilia. Não há amor que justifique um homem de 40 anos a fazer sexo com uma menina de 12 anos, mesmo que essa menina, na sua imaturidade, se insinue para esse homem. Ele é o adulto da brincadeira e tem de dizer não. Então vamos dar o nome certo. Não é amor. É pedofilia.

         O escritor cria um prefácio fictício em que um doutor em filosofia diz que “Lolita será visto como um clássico nos meios psiquiátricos.” Mas ele diz que não importa sua relevância científica ou literária é o impacto ético que o livro deve exercer sobre o leitor sério, e faz uma advertência dizendo que pais, educadores, assistentes sociais, têm de ter mais diligência e visão na tarefa de criar uma geração melhor num mundo mais seguro.

      Então, nesse prefácio, Nobokov já tenta dizer por que escreveu essa história, para que os leitores sérios tomem cuidado com as futuras gerações. Claro, que há o outro lado da moeda. Quantos desequilibrados devem ter lido Lolita e achado que podiam fazer como o protagonista? Não creio que um pedófilo ao ler Lolita tenha se identificado com o protagonista e procurado ajuda psiquiátrica.

          Por outro lado, não creio que deva haver qualquer censura à literatura. Os livros de guerra, de assassinato, de traição, de roubos devem continuar a serem escritos. Mesmo que malucos se identifiquem. Entretanto, a pedofilia nos incomoda mais porque as crianças são indefesas e têm de ser protegidas.

       Literariamente, Lolita tem grande valor. A narrativa é recheada de várias analogias completamente originais, que o escritor cria.  Há inúmeras citações de outras obras , em uma intertextualidade que enriquece o romance. Além disso, Nobokov é o rei do detalhe e da precisão. Seu protagonista chega a descrever fisicamente o desabrochar das ninfetas.

       Durante o livro, somos capazes de sentir raiva de Humbert e uma pena imensa da Lolita. O personagem Humbert até tenta nos convencer que em algumas culturas como na Índia, meninas se casam com homens adultos e até com velhos de mais de oitenta anos e talvez, lá na década de 50, quando o livro foi lançado, não houvesse muita luz sobre esse problema. Mas hoje, em pleno século XXI, culturalmente ou não, não resta nenhuma dúvida de que é uma violência contra as meninas.

       Ainda para se desculpar, também cita Dante que era apaixonado pela menina Beatriz, mas não menciona que a menina e o poeta eram praticamente da mesma idade. Um amor entre crianças. Muito diferente da história de Lolita.

Humbert o tempo todo está em contradição. Ao mesmo tempo diz que é amor, também diz que seus desejos são degradantes e perigosos.

        Há dois trechos no livro que são comoventes. Quando ele diz que ouvia os soluços de Lolita durante a noite quando ele fingia que estava dormindo e depois, quando ele diz que ela poderia ter sido uma excelente jogadora de tênis se ele não tivesse quebrado alguma coisa dentro dela.  Essa consciência do mal que ele fazia à menina, mas que mesmo assim não o fazia parar, é algo que realmente nos choca.

          Ao final, o próprio Nabokov enquanto autor, acrescenta um texto em que conta as dificuldades em encontrar um editor para publicar seu livro e diz que professores de literatura sempre perguntam qual o propósito do autor? Ao que ele responde que só queria se livrar de uma história que havia dentro dele. Talvez seja isso mesmo. Uma vez que uma história nasce na cabeça de um escritor, ela tem de ser colocada no papel, não importa qual seja o tema.

         Muitos filmes, peças de teatro e ballets foram baseados no livro. Lolita ficou tão famoso que o nome praticamente virou um adjetivo no mundo todo. Toda vez que alguém quer dizer que uma menina é sexualmente precoce, em uma relação com um homem mais velho, costuma-se chamá-la de Lolita.

      Assim, apesar de polêmico, creio que tem de ser lido. Até por que polêmicas nos enriquecem. Ajudam a formar nosso juízo de valor. Ninguém deve nos dizer o que ler, como em governos autoritários. Essa deve ser uma decisão de cada um. É como assistir ou não um filme. Comer ou não comer algo. A liberdade de escolha é fundamental e não devemos deixar nunca que, como em ditaduras, alguém decida por nós.

Vídeo-resenha: https://www.youtube.com/watch?v=p2oUAgdKp8k

               

FICHA TÉCNICA

Título Original – Lolita

Edição Original – 1955

Edição utilizada nessa resenha – 1995

Editora  Globo– São Paulo

Número de páginas – 320