LUGAR NO INFERNO

          Quem mata cochonilha vai para o inferno? E barata, pernilongo? Os veganos fazem o quê com suas pulgas?

        Com toda essa onda de não matar qualquer ser vivo, tenho me perguntado muito se sou algum tipo de assassina. Só de cochonilha que ataca minha romãzeira devo matar dezenas por dia. E o pior é que é uma luta corpo a corpo. Nenhum óleo ou inseticida natural faz efeito. Só funciona com um cotonete úmido que uso como espada para esmagar as pobrezinhas que insistem em se alimentar da minha planta.

         Pronto!! Já estou vendo meu lugar nas profundezas do inferno sendo bem guardado. O diabo deve dar risada a cada investida que dou sobre todos esses seres minúsculos que tanto me incomodam.

           São as delícias e as mazelas de se morar em casa. Até visita de morcego recebo de vez em quando. Habitantes de apartamento talvez nem imaginem tal cenário. Vão para o céu, onde, provavelmente, os insetos e aracnídeos também não existam.

           Sou capaz de ficar obcecada por eliminar um borrachudo que me picou, saindo feito louca pela casa toda, buscando o tal inseto que voa baixo e se esconde nos cantinhos escuros.

          E traça? Alguém já tentou eliminar de vez as traças de uma casa depois que elas se mudaram para o seu lar? Eu tento há mais de vinte anos sem qualquer sucesso. Quando penso que dei fim a última traça, elas fazem questão de me dizer que venceram, se postando bem no meio do meu quadro predileto. Aliás, traças adoram morar em quadros. Devem ter alma de artista.

        Nessa lista, não poderiam faltar as formigas trabalhadeiras. E como trabalham essas malditas operárias!! Um grão de açúcar em cima da pia e o exército inteiro sai do formigueiro. Não importa o que pensasse La Fontaine, prefiro mil vezes uma cigarra preguiçosa.

           De vez em quando, nessa luta sem fim, aparece alguma coisa que me alegra. Sou fã incondicional do inventor dessas raquetinhas que fazem desaparecer as moscas. Eu sei. Acho que sou má. Ou, pelo menos, mazinha. Tenho certeza que as aranhas, que levam horas tecendo suas teias, que eu arrebento em apenas um segundo, me detestam.

          Pensando bem, só o inferno para me redimir. Mas, por favor, não se esqueçam de pôr a raquetinha no caixão.

São Paulo, 02/11/2021