MENSAGEM

          O livro de poemas Mensagem do poeta português Fernando Pessoa é composto por apenas 44 pequenos poemas, fácil de ler, mas a leitura é fundamental. Introduzindo a obra, há uma nota preliminar, um apontamento do poeta, em que o escritor diz que para entender os símbolos é exigido do leitor 5 condições:

Simpatia

Intuição

Inteligência

Compreensão

Graça ou Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda

Ou seja, o poeta espera que o seu leitor seja inteligente, seja simpático, use a sua intuição e todo seu conhecimento e fé para entender os seus poemas, um pouco o sonho de todo escritor.

          Uma curiosidade é que como Fernando Pessoa morou muitos anos na África do Sul, quando o país ainda era uma colônia inglesa, ele estudou em escolas inglesas e os seus outros três livros publicados em vida eram todos em inglês. Mensagem foi o único livro publicado em português. Como o poeta deixou vinte e cinco mil páginas de textos, a maioria dos seus livros são póstumos, inclusive, o famoso Livro do Desassossego.

        Fernando Pessoa ficou muito conhecido por usar vários heterônimos como Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. E o mais interessante é que cada heterônimo tinha um perfil diferente e muito bem construído.

          Uma característica da escrita de Fernando Pessoa que marca toda a sua obra é o seu poder de síntese, ou seja, ele não quer ser redundante. Um bom exemplo são os poemas de Mensagem, todos curtos, mas isso não impede que eles passem uma ideia completa. Essa característica é justamente saber usar a síntese.

          O poeta vivenciou, no início do século XX, a renovação que a sociedade vinha vivendo e, como sempre lembramos, a literatura acompanha a sociedade. Se a sociedade muda, também a literatura tem de se renovar. Além disso, era um período pós primeira guerra e toda Europa vivia uma fase nacionalista, o que é comum depois de uma guerra.

          Fernando Pessoa foi um escritor que pertenceu à geração de Orpheu que era um grupo de escritores que introduziram o modernismo na literatura portuguesa, através de uma revista modernista chamada Orpheu. Mas também vai aderir ao nacionalismo. Assim, em Mensagem, como bom modernista, ele vai utilizar um nacionalismo crítico que também vê as mazelas e os problemas de seu país. Importante ressaltar que, mesmo sendo modernista, os versos de Mensagem são regulares, ou seja, seguem possuem métrica e rima.

          O livro é dividido em 3 partes: a primeira chamada Brasão, a segunda chamada Mar Português e a última denominada, O Encoberto. Cada uma das partes foi escrita em uma época diferente e somente em 1934, um ano antes de o escritor morrer, é que ele publicou-as juntas no livro que deveria se chamar Portugal, mas que na última hora, mudou para Mensagem.

          A primeira parte chamada Brasão é constituída de poemas que querem contar um pouco da origem de Portugal, como o país se formou, os homens responsáveis por essa origem como D. Henrique, D. Affonso, D. Diniz e tantos outros. Pessoa faz um pequeno poema para cada um deles para falar do que cada um fez por Portugal. E como Portugal se tornou um reino.

          Um bom exemplo da primeira parte é o poema dedicado a D. João Segundo, que foi o responsável pelas conquista de novas terras, e que levou Portugal, principalmente, a exploração do oceano Atlântico. O poema chama-se Uma Asa do Grifo e nos mostra o interesse que nascia em descobrir novas terras e vai ser responsável, inclusive, pela chegada dos portugueses ao Brasil.

         É preciso lembrar que Grifo é um animal da mitologia com cabeça, bico e asas de águia, mas o corpo de leão. Ou seja, o animal que domina o ar e também o que domina a terra e que simbolizam a sabedoria, a águia, e a força, o leão. Um ótimo nome para homenagear D. João Segundo que ficou conhecido como o Príncipe Perfeito.

O poema diz assim:

Uma Asa do Grifo

Braços Cruzados, fita além do mar.

Parece em promontório uma alta serra-

O limite da terra a dominar

O mar que possa haver além da terra.

 

Seu formidável vulto solitário

Enche de estar presente o mar e o céu,

E parece temer o mundo vário

Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

 

          Já na segunda parte do livro, chamada Mar Português, os poemas vão versar justamente sobre as conquistas de Portugal. Vão homenagear os grandes navegantes como Bartolomeu Dias, o primeiro europeu a contornar o cabo da Boa Esperança, chegando ao Oceano Índico, como também Vasco da Gama que chegou à Índia. Vai falar de Colombo que Portugal não quis apoiar e das terras que foram perdidas. Entretanto, Fernando Pessoa não fala de Pedro Álvares Cabral e termina falando de D. Sebastião no poema chamado A última Nau, e que lembra que D. Sebastião foi e não voltou jamais, já que D. Sebastião morreu em batalha, no Marrocos.

          A segunda parte termina com o poema Prece em que o poeta fala do fim da era das navegações para Portugal, exaltando que o país um dia faça novas conquistas:

E outra vez conquistemos a Distancia -

Do mar ou outra, mas que seja nossa!

        Dessa segunda parte do livro, destacamos o poema Mar Português. É nele que está uma frase que repetimos muito aqui no Brasil “ Tudo vale a pena, se a alma não for pequena, sem que a maioria saiba da onde vêm esses versos. Mar Português é um poema que fala das dores, das perdas das vidas que a exploração marítima causou e o poeta pergunta se valeu a pena.

Diz o poema:

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

          Por fim, a terceira parte do livro chamada O Encoberto refere-se justamente a D. Sebastião, o mito do sebastianismo, e o declínio de Portugal.

          O que é o mito do sebastianismo?

         Como já dissemos, D. Sebastião morreu em uma batalha no Marrocos, mas como não havia um corpo para ser enterrado, muitos alegavam que ele havia simplesmente desaparecido e que retornaria para reerguer Portugal, já que com a sua morte sem deixar herdeiros, Portugal havia passado para o primo D. Felipe, rei espanhol, e para o reino da Espanha. O Sebastianismo é justamente essa crença de que vai surgir um salvador, o Rei Encoberto, como D. Sebastião ficou conhecido.

          O problema desse mito é que começaram a aparecer em Portugal falsos reis, alegando que eram o próprio D. Sebastião, e as pessoas tinham tanta necessidade de que alguém resolvesse seus problemas que começaram a acreditar. Por quê? Porque era mais fácil. A sociedade sempre quer um mito que magicamente resolva seus problemas. Só que nós sabemos que isso é impossível.

         O poeta termina a terceira parte e o livro com o poema Nevoeiro em que Fernando Pessoa mostra como a situação de Portugal é incerta.

Nevoeiro

Nem Rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Esse fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer –

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerra.

 

Ninguém sabe que coisa quer

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

 

É a Hora!

Valete, Frates.

 

          A expressão Valete, Frates significa Adeus, Irmãos. Lembrando que também é uma saudação usada em sociedades esotéricas, como Avante, Irmãos. Ou seja, mesmo pessimista, dentro de um nevoeiro, que não vê a saída muito clara, ele conclama Portugal a sair do seu imobilismo dizendo que havia chegado a hora de se reerguer.

        Então, resumindo, Portugal é o personagem principal do livro. Seu objetivo foi falar do passado do país, da época de glória das navegações e do futuro incerto após a fase das navegações e descobertas terminar. É uma linguagem que usa muito o simbólico, o divino, o transcendente. Por isso, lá no começo, ele diz que o leitor precisava ter aquelas cinco características para entender os símbolos.

       É uma escrita nacionalista, mas nacionalista crítica, pois o poeta era modernista. E, mesmo modernista, tem versos regulares com métrica e rima.

         É um livro, ao mesmo tempo, mítico e místico. Mítico porque usa mitos como o do Grifo e do Sebastianismo, citados acima, e místico porque acredita no espiritual.

         Por fim, o poeta usa o mito do sebastianismo para tentar fazer renascer a grande pátria que um dia foi Portugal porque é um mito muito conhecido do povo português. O próprio Fernando Pessoa disse:

“Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo.... Então se dará na alma da nação o fenômeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.”

Vídeo–resenha: https://www.youtube.com/watch?v=WVjql9JnWMU

FICHA TÉCNICA

Título Original – Mensagem

Edição Original – 1934

Edição utilizada nessa resenha – 1983

Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro

Número de páginas – 24