MESMO PASSO

          Estou há tanto tempo nesse caminhar que não vejo quaisquer surpresas, boas ou ruins. Não há muitos atalhos e nem belas paisagens depois da curva. É só mais uma estrada, longa. Muito longa. Não há acidentes. O asfalto é liso, uniforme, quase impecável.

           Caminho devagar, sem pressa, observando sem muito interesse onde esse caminho vai dar. No fundo, acho que já conheço o final.

        Gosto de trechos de terra, recapeamentos desnecessários, até mesmo um buraco ou desmoronamento que me permita mudar o rumo da mesmice. Mas o engenheiro chefe não deve pensar como eu. Até as árvores parecem tombar para o mesmo lado.

           De vez em quando, empaco. Sento na pedra por tempos quase infinitos e ouço o vento que insiste em cantar a mesma melodia fina e triste. Elaboro planos de fuga, saídas imaginárias, desenho no ar mapas nunca vistos para terras desconhecidas.

           O sereno me pega desprevenida.

           Um passo, mais um passo... é sempre o mesmo passo que ser recomeça.

 

                                                               São Paulo, 13/07/2021