MINHA VIDA DE MENINA

 

         

        Durante muitos anos, o livro Minha Vida de Menina, de Helena Morley permaneceu esquecido depois de alcançar relativo sucesso quando foi lançado na década de 40, mais precisamente no ano de 1942. É o diário da própria autora, quando era adolescente na cidade de Diamantina, interior de Minas Gerais, nos anos de 1893,1894 e 1895, finalzinho do século XIX, quando ela tem dos doze aos quinze anos. Apesar de ser um diário, não traz escritos, dia após dia. Helena escrevia quando tinha vontade, podendo pular até uma semana sem nenhuma nota, e sempre em primeira pessoa.

          Helena Morley é o pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant. Alice ou Helena era filha de pai inglês com mãe brasileira e esta combinação de culturas tão diversas foi determinante na sua educação e formação. Inclusive, no aspecto da religião, já que a família do seu pai era protestante e a da mãe extremamente católica. Helena conta que sofreu muito quando o avô inglês morreu e todos os seus colegas diziam que ele tinha ido para um céu diferente, um céu dos ingleses e não pode ser enterrado na igreja. Havia, claro, uma depreciação dos colegas de Helena, já que a sociedade da época, especialmente no interior de Minas, era extremamente católica. Essa formação já deu à Helena, a possibilidade de enxergar o mundo de forma mais pluralista e não apenas pelo viés do catolicismo.

          Apesar de trazer a escrita fácil sobre o dia a dia de uma jovem, Minha Vida de Menina é muito mais do que um diário sobre fatos cotidianos. Helena, mesmo sendo muita articulada para tão pouca idade, não é uma historiadora ou uma socióloga e, por isso mesmo, alguém que retrata sem vícios o que vê e o que sente. Ela escreve com palavras fáceis, mas traz muitos questionamentos sobre o que vê.

        E ela consegue com o seu diário fazer o retrato de uma época, logo após dois eventos muito significativos na história do Brasil: a libertação dos escravos(1888) e do fim da monarquia no Brasil(1889). Um aspecto muito interessante do livro é quando Helena reproduz até a maneira de falar dos antigos escravos. Um dos ex-escravos em determinado momento se dirige assim para a avó de Helena.

          “- Louvado seja Cristo, sinhá Véia.”

        Tratamento que hoje seria mal-visto, “veia”, naquela época era uma maneira respeitosa do ex-escravo se dirigir à sua antiga dona.

        Uma questão que aparece bastante no diário é a convivência com negros recém-libertos que, apesar da abolição, não tinham para onde ir e continuavam morando com seus ex-donos, principalmente, na chácara da avó de Helena e sendo sustentados por ela. Aliás, a relação da adolescente com sua avó é uma das coisas que mais nos emocionam em seu relato.

          Além disso, o livro fala sobre a rotina escolar, o convívio com a família que naquele tempo era muito maior do que agora. As famílias eram grandes e os tios e os primos viviam sempre juntos. Helena também fala sobre a mineração, atividade própria de Diamantina, como o próprio nome já diz, uma cidade que vivia da extração de diamantes, atividade da qual o pai de Helena se ocupava, ele era minerador. Encontrar um diamante podia fazer um homem se tornar rico do dia para a noite. Mas não foi isso o que aconteceu com o pai de Helena. Pelo menos nos três anos que o diário relata, seu pai não conseguiu fazer fortuna. Pelo contrário, a família de Helena tinha dificuldades financeiras que são contadas pela autora e contrastadas com a vida da avó e dos tios que tinham dinheiro.

          Diamantina, naquela época, não tinha água encanada e nem luz elétrica. A autora lembra que não tinha nem padaria. Uma atividade que fazia então parte da rotina era a família inteira ir para as margens do rio lavar roupa. Era um momento divertido para Helena e seus irmãos e que só acontecia, justamente porque na cidade não tinha água encanada.

     Também é muito interessante verificar como eram recebidas algumas invenções que pra nós são tão comuns. Em um trecho do livro que eu separei, Helena diz “Veio na sobremesa um copo com um doce bonito dentro. Eu encho a colher e ponho na boca. Tomei um susto e todos caíram na gargalhada. É uma coisa que aconteceria a qualquer, pois nenhum de nós conhecia. Chama-se sorvete e é feito de gelo.” São trechos como esse que nos ajudam a entender o que era viver naquela época.

         Uma das coisas que Helena diz várias vezes é que o professor de português e seu pai a obrigavam a escrever todos os dias. Mesmo que isso não acontecesse todos os dias de verdade e por mais que isso possa nos parecer como um castigo, fica bastante claro que o exercício da escrita é tudo. Helena escreve com facilidade e, se não fosse por essa obrigação, talvez o seu livro jamais tivesse sido escrito.

Vídeo resenha: https://www.youtube.com/watch?v=HoD4l9KAXIQ

FICHA TÉCNICA

Título Original – Minha Vida de Menina

Edição Original – 1942

Edição utilizada nessa resenha – 2016

Editora Companhia de Bolso – São Paulo

Número de páginas – 326 (Incluindo introdução de Alexandre Eulálio e Nota de Helena Morley )