MIOPIA      

       

       Tenho miopia. Várias. Algumas eu tiro de letra, finjo que não vejo. Mas a mais comum é a física, graus e graus.

       Sou dependente de uns óculos ou de uma lente de contato desde os quinze anos. Antes disso, minha mãe, que tinha certeza de que era médica sem nunca ter feito medicina, tinha uma teoria de que não se poderia usar óculos para não ficar dependente. Resultado: na infância, enxerguei bem mais ou menos o mundo, e talvez seja por isso que resolvi olhar para dentro, já que estava mais pertinho.

          Na adolescência, bati os pés e fui a um oftalmologista.

       Lembro a primeira vez que vi a Lua equipada por lentes. Eu nunca tinha visto, realmente, a Lua. Tive uma vontade enorme de abraçar aquela coisa enorme, inatingível, mas, de repente, completamente visível.

        É fantástico poder enxergar. Enxergar com os olhos, com as mãos, com os ouvidos, com a alma. De repente, algo que nunca tínhamos visto aparece do nada em uma fala inocente, em uma página de livro, em um filme, em um pensamento nunca pensado. E, finalmente, vemos!

         Deveria haver óculos para o cérebro. Que bom seria poder comprar caixas e mais caixas de óculos cerebrais e mandar para os amigos e também, principalmente, para os inimigos. Eles colocariam os óculos e, como por magia, também veriam a minha lua e poderíamos conversar sobre suas crateras, sem medo de que não se soubesse do que estamos falando. Miopia cerebral é um caso muito grave de miopia.

       Também deveria haver óculos para o nariz. Ver os cheiros que se confundem e até aqueles cheiros malcheirosos que alguns insistem em produzir. Cheiros ruins desapareceriam do planeta porque todo mundo enxergaria o cheiro fedido. E quem quer ver um cheiro fedido?

       Por fim, deveria haver óculos para o coração para que esse pobre coitado não se metesse em locais escuros correndo o risco de ser assaltado por um ladrão sem qualquer escrúpulo que leve tudo com ele. Coração míope sofre muito.

        Por enquanto, só tenho óculos de graus, mas amigos, livros, lugares são lentes poderosas que me fazem enxergar a pontinha do infinito. Vejo até o que eles, muitas vezes, não mostram, e sou imensamente grata por isso.

 

                                                                                                           São Paulo, 04/08/2020