MISSÃO: FAZER RIR

 

          Sento na frente do computador sem qualquer ideia, mas com uma missão: tenho de escrever um texto engraçado. É o texto de um espetáculo. Um monólogo para um palhaço que promete que será, nesse caso, apenas comediante. Tento achar um mote que renda boas cenas. Está difícil. Para cada crônica engraçada que escrevo, há outra triste, desesperançada, que não publico. Ninguém precisa de mais tristeza. Por isso, um texto para um palhaço é quase um presente.

          Tento me lembrar como os comediantes fazem meus dias mais felizes quando o noticiário pesa demais. Nunca assisti tanta série e filme de comédia, tanto stand up, tanta gente que me faz, pelo menos, sorrir. E a eles, sou imensamente agradecida.

          Já há tempos não assisto filmes escuros, nem séries de distopia, dramas chorosos e evito gente pessimista demais. Acredito que haja um limite para tanta dor. E ando bem perto desse limite.

           Recolho ideias, palpites, piadas que espalho sobre minha mesa à busca da tal ideia que será o mote do espetáculo. A ideia genial ainda não veio, mas o processo está sendo divertido.

        Resolvi vasculhar na caixa de memória e tentar enumerar os momentos mais engraçados da minha vida. É um exercício que eu recomendo, principalmente, nesses tempos escuros. Da infância à “melhor idade” há mais momentos hilariantes do que costumamos recordar. Até a surra da infância, (não se assustem os mais novos, mas antigamente a gente apanhava sim) vista agora, de longe(só de longe), ficou engraçada.

           As idas e vindas da escola sempre também provocavam muitos momentos divertidos. Aliás, tenho ótimas lembranças da escola, das aulas matadas, do namoro do ensino médio, de tantos momentos felizes e claro, engraçados. Fico animada.

              De uma sentada, escrevi a peça e mandei para o palhaço. Depois de uma semana de total silêncio, tomo coragem e ligo para saber sua opinião. Ele começa a chorar do outro lado. Comecei a achar que eu deveria enterrar de vez minha esperança de escrever comédia. Mas ele me explica que ainda não leu porque está muito triste. Havia perdido seu nariz de estimação. Achei que era uma piada, e começo a rir. Ele briga comigo. Envergonhada, peço desculpas.

          Desligo o telefone e rio sozinha. Vale outro texto. É impressionante como até chorando os palhaços me fazem rir.

São Paulo, 19/10/21